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Clara Ferreira Alves

Eça, Gogol e o kitsch lusitano

Clara Ferreira Alves

Clara Ferreira Alves

Escritora e Jornalista

O kitsch contemporâneo é uma das grandes invenções da pátria. Podíamos exportá-lo se valesse alguma coisa nos mercados internacionais. Infelizmente, não vale nada. Não é possível ouvir uma personagem política ou cultural ou institucional (ou outra) sem nos darmos conta de como aquilo a que chamamos corrupção, incluindo a corrupção intelectual e moral, é uma das formas mais perfeitas do kitsch carnavalesco que enche os jornais e telejornais de notícias. Nenhuma delas essencial. Veja-se o tempo que o país perdeu a discutir a magna questão do carro censurado no Carnaval de Torres por causa de um 'Magalhães' vagamente porno, ou a discutir o nu púbico de Courbet que ninguém viu nem sabe o que é; veja-se como o nome de 'Magalhães' se transformou em computador iletrado.

Parecemos todos personagens de Gogol, que agora faz anos e que escreveu sobre isto no modo desbocado e genial que lhe conhecem os que o leram. Gogol não escreveu apenas sobre a Rússia, nem sobre os funcionários e burocratas da Rússia. Nem satirizou o governo, nem inventou o realismo, nem tentou reescrever uma "Divina Comédia" completando unicamente o Inferno com Almas Mortas. Gogol, o autor de "O Capote", "O Inspector-Geral", do maravilhoso conto "O Nariz", de "Tarass Bulba" e "Diário de um Louco", e de "Almas Mortas", Gogol, o discípulo e sucessor de Puschkin, Gogol, o maníaco insólito das letras russas, não foi, como explica Nabokov no seu livro sobre o escritor e a obra, "o Dickens russo". Gogol foi o autor que melhor retratou essas manifestações do espírito humano reconduzidas a uma palavra que podemos chamar em português "vulgaridade" e que em russo toma o nome de pochlost. Uma espécie de kitsch parecido com o sentido histórico enunciado por Milan Kundera. Seres bizarros iguais a todos nós movem-se, comem e dormem, pensam e circulam na monotonia do pochlost.

Tradução adjectiva: barato, factício, banal, desenxabido, pomposo, de mau gosto; ou inferior, desprezível, pechisbeque, vil, lantejoula, de pacotilha. Como diz Nabokov, este é um mundo de falsos valores que podemos detectar sem precisar de uma especial sagacidade.

"De facto, estas palavras concorrem para nos fornecer uma classificação evidente dos valores relativos a um dado período da história dos homens; mas o que os russos chamam pochlost escapa soberbamente ao tempo e está tão habilmente recoberto de subtilezas protectoras que a sua presença (no meio de um livro, de uma alma, de uma instituição, de um milhar de outros pequenos lugares) quase nunca é detectada".

Continua Nabokov: "Há cem anos, quando os publicistas de São Petersburgo apegados aos valores cívicos misturavam capitosos cocktails de Hegel e de Schlegel (com um dedo de Feuerbach), Gogol, numa história fortuita com a sua marca, dava conta da dimensão imortal do poshlost que se apoderava da nação alemã e expressava-o com toda a força do seu génio".

Vale a pena determo-nos nesta não-detecção do pochlost dissolvido na nossa vida pública. Um dos episódios mais delirantes de pochlost foi há pouco tempo relatado pelos jornais e agências. No dia 14 de Março, segundo a Lusa, o realizador João Botelho afirmou-se "comovido" com a presença do Presidente da República, Cavaco Silva, na anteestreia de "A Corte do Norte", o seu filme baseado no romance de Agustina Bessa-Luís.

João Botelho, cito, destacou "o respeito do Presidente da República em relação à arte portuguesa". "É uma coisa que me comove, ao contrário de outras pessoas, com quem estou decepcionado", afirmou. Antes de assistirem ao filme, o PR e o cineasta visitaram a exposição dedicada a Agustina. E então, Cavaco Silva disse aos jornalistas que "não conhecia a obra de Agustina Bessa-Luís" mas tinha lido antes da anteestreia um pouco da história "para não ficar completamente ignorante". Repito: "para não ficar completamente ignorante". Após a sessão, o Presidente saiu sem prestar declarações, o que quer dizer que ficámos sem saber o que pensava do filme do cineasta comovido.

Ninguém parece ter reparado na formidável gargalhada que o sentimental episódio suscita. O Presidente não mente nem lisonjeia e tem os meus respeitos (não comovidos) por isso. Se passarmos da cultura para a política os episódios gogolianos abundam. O julgamento de Isaltino Morais é uma telenovela da mais carnavalesca vulgaridade, com um tempero romanesco. O 'caso Freeport' também. Recoberto pela vulgaridade da "emoção", o pochlost esconde a realidade com o manto diáfano da fantasia. A realidade e a verdade não interessam. Nem são rentáveis. Sobejam o sentimento e a indignação, que cativam o vulgo profano. A falta que nos faz um lúcido descendente de Eça de Queiroz que detecte e descreva esta gente.