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Expresso

Clara Ferreira Alves

Brüno is gay, it's ok

A subtileza e a inteligência deste humor não são perceptíveis para audiências convencionais.

Clara Ferreira Alves

Clara Ferreira Alves

Escritora e Jornalista

Consideremos Brüno. Brüno é um austríaco homossexual que apresenta um programa de televisão sobre moda, Funkyzeit. Brüno é um fashionista gay. Vive com um diminuto parceiro, Diesel. Têm uma vida de casal "simples e aborrecida". Vemos Brüno e Diesel lançados em lúridas coreografias do sexo entre homens. As pessoas começam a ficar chocadas. Ao cabo de meia hora, o cinema divide-se entre os espectadores que riem e os que não riem, a maioria. Outros abandonam a sala. Brüno, a personagem de Sacha Baron Cohen, conseguiu o que queria, dar cabo da passividade e da indiferença da audiência. Ninguém vai ver Brüno à espera de dar umas gargalhadas brancas no conforto da poltrona. Brüno deixa-nos lívidos.

A subtileza e a inteligência deste humor não são perceptíveis para audiências convencionais que se sentem atingidas com a pornografia da estupidez. A ignorância, o sexismo, o racismo, a homofobia, a misoginia, o oportunismo, a ganância, o nacionalismo, a violência, o terrorismo, a xenofobia. Ou os admirados vícios das celebridades, como o de adoptar crianças africanas ou cantar Live Aid. Brüno deita abaixo todas as bolas deste bowling moral. Nem um preconceito fica de pé. A audiência, mesmo a mais couraçada, descobre que afinal não é tão politicamente correcta como quer nem tão politicamente incorrecta como quer ser. Brüno não falha um cliché.

Brüno vai para a América para ser famoso depois de cair em desgraça em Viena. Acaba por conseguir. E acaba por gravar o seu videoclipe de ajuda ao Terceiro Mundo, ao lado de Bono, Sting, Elton John, Slash e Snoop Doggy Dog, nada incomodados por serem ridicularizados. Menos incomodados do que os espectadores que abandonam a sala.

Na perseguição da fama Brüno não nos poupa a infâmias. Num dos momentos mais alucinados do filme reaparece em Israel para recomeçar as conversações de paz. Numa mesa com israelitas e palestinianos, Brüno confunde o Hamas com húmus e dedica uma canção às partes desavindas, concluindo que existe pelo menos uma coisa em que ambos estão de acordo, que o húmus é bom para a saúde. Partamos daqui, diz ele. Na verdade, este é o mais perfeito acordo entre partes que até hoje se conseguiu na região, e Sacha Baron Cohen, um judeu ortodoxo, é o homem ideal para o revelar. Por que diabo Borat é anti-semita e Brüno é um austríaco que cita Hitler? Por que diabo Cohen conseguiu convencer palestinianos e israelitas a fazer figuração? E filmar o sketch em Israel? Porque é judeu e um judeu muito famoso. E porque é, apenas, um cómico. E um cómico judeu não mata ninguém.

No Líbano, num campo de refugiados, em princípio de conversa com um chefe das Brigadas Al-Aqsa, Brüno chama feiticeiro sujo e espécie de Pai Natal sem-abrigo ao "vosso rei Osama" e diz que a Al-Qaeda está fora de moda, é demasiado 2001. É posto fora, para variar. Com esta sequência, Cohen conseguiu infiltrar o derradeiro tabu no filme, o 11 de Setembro. O que só pode ser feito por um descendente de sobreviventes do Holocausto, com uma mãe israelita. Ou melhor, por um judeu britânico, educado numa public school e em Cambridge, onde cursou História (e teve Niall Ferguson como professor). Cohen sabe do que fala e sabe do que ri. Ri do que é ofensivo. Muitas coisas que nos ofendem são inofensivas, incluindo o sexo gay, enquanto as verdadeiras ofensas à humanidade passam despercebidas. O extermínio deixa-nos menos ofendidos do que dois homens na cama. A violência deixa-nos mais indiferentes do que um beijo entre dois homens.

A sociedade americana, na sua mais elementar estupidez e na sua candura mais conformista, acaba por ser o bombo da festa, como em Borat. É provável que Cohen não possa prosseguir este registo em filmes posteriores; é como se ele esgotasse a capacidade de cada personagem, Ali G, Borat e Brüno, extrair da audiência e dos figurantes o máximo de realismo perverso e cupidez. Não parecem existir sequelas possíveis para Brüno, em particular. Porque Brüno, de todos eles, é o mais chocante, mais "in your face". O mais explícito e o mais cómico. O que mostra tudo e o sexo não é o pior de tudo. Uma audiência americana do interior terá dificuldade em rir com Brüno e a sua linguagem, apesar de rir dos reality shows cheios de abjecções, rir dos filmes para adolescentes cheios de sexo e piadas sexuais e rir da boçalidade dos zelotas. A audiência consegue rir disto. Não conseguirá rir de si mesma. E muitos homossexuais também não, achando-se mais ridicularizados do que os heterossexuais que começaram a praticar swing, a troca de casais, na sua lua-de-mel. Sacha Baron Cohen é o mais original e talentoso humorista dos últimos anos. Das mãos dele ninguém sai vivo. Esperemos que os detractores o deixem sair vivo a ele.