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Expresso

Clara Ferreira Alves

Bestialmente saudável

Spin me back down the years and the days of my youth

Jethro Tull, Thick as A Brick

VAI POR AÍ, entre zurzidelas e cotoveladas nos becos dos jornais, uma luta medonha entre os saudáveis e os doentios, os fumadores e os não fumadores, os do ginásios e os dos sofás, os do álcool e os da água mineral. Entre os decadentes e os aperfeiçoados. Tendo estado do lado dos decadentes, passei-me para o lado dos aperfeiçoados. E dou por mim a encher o cabaz de legumes sem pesticidas e carne biológica, ovos sem colesterol e fruta mirrada. Admito que no caso do ovo destituído de colesterol esteja a exagerar visto que as minhas análises ao sangue acusam um colesterol abaixo dos valores normais para a época, ou como diz o meu médico com simpatia, um colesterol de Cro-Magnon. Os cigarros foram abandonados nos anos 90, para dar tempo a limpar o pulmão dos fumos negros, e os charutos e cigarrilhas também. Aqueles Upmann Petit ainda me enchem os olhos de saudade. No álcool estou como a Bridget Jones, que contava as unidades por semana. Parece que as mulheres, por serem mais fraquinhas e terem o fígado mais pequenino, só podem engolir 14 unidades por semana e mesmo assim não convém por causa do cancro da mama. Experimento medicamentos ayurvédicos, faço ioga, tomo vitaminas, corro quilómetros, e quase não como carne embora não goste de peixe. E tento ter o meu salmão semanal, de preferência sem mercúrio e selvagem, por causa dos óleos e dos ácidos gordos. E as fibras diárias em vez das febras de porco. Desisti do tofu e das algas porque, francamente, é preferível morrer doente a comer esponja. Este regime é tão saudável que a esta hora os decadentes estão a vomitar.

Como é que isto me aconteceu? Eu fumava dois maços. Passava meses sem tocar em peixe. Bebia 140 unidades por semana. Comia fruta com pesticidas. Desconhecia a existência das algas. Adorava aspirinas. E não desdenhava um Bloody Mary ao pequeno-almoço. Sem ser decadente abjeccionista, o que requeria viver à la Luiz Pacheco, era vigorosamente decadente. Toda a minha geração era. Apanhámos com o 25 de Abril em cima nos verdes anos, tempos pós-revolucionários de uma esplendorosa possibilidade. Éramos todos decadentes e imortais. Podíamos guiar carros a 120 nas pontes depois de ter bebido litros de tinto, podíamos fumar charros e inalar, podíamos mastigar anfetaminas ao pequeno-almoço e jantar gins tónicos. Podíamos não comer durante o dia e fumar a noite toda. Podíamos fazer directas. E etecétera. Na véspera de apanhar o avião para Israel, durante a primeira guerra do Golfo, apanhei uma intoxicação alimentar num restaurante macrobiótico nas traseiras do "Expresso". Uma pizza esverdeada coberta de cebola. Achei que como ia para a guerra era melhor alimentar-me bem. Vomitei durante 24 horas. Pode ter sido também da mousse de alfarroba substituta do chocolate. Eu mencionei o chocolate? Sou viciada em chocolate. Dantes eram barras de Mars e Nuts, hoje é chocolate negro, pelo menos 88% de cacau, de preferência de São Tomé, sem açúcar e sem leite.

Como é que me isto me aconteceu? A minha geração é aquela que os americanos chamam baby-boomers, os meninos nascidos no pós-guerra, nos anos da abastança e da ordem, dos hippies e dos Beatles. Os meninos da torradeira e do frigorífico e do iogurte. Os baby-boomers foram quase todos decadentes, esquerdistas, feministas, anarquistas. E imortais enquanto foram novos. Fumávamos nos intervalos dos filmes do Bergman e do Syberberg. Bebíamos depois de ir ver o Ibsen e o Strindberg. Discutíamos o mundo como se ele não fosse acabar. Nem nós. Tínhamos causas, não tínhamos pipocas, nem computador, nem Internet, nem spas, nem aquecimento global, nem Al-Qaeda. Tudo era feito em grupo. Divorciámo-nos todos. E depois envelhecemos.

A geração mais próspera de sempre na história da Europa e da América arranjou rugas, filhos, barrigas, pensões de alimentos, caixa de previdência, pais doentes, pensões de reforma. Todos tínhamos jurado morrer jovens e fazer uns belos cadáveres e de repente apareceu a hérnia discal naquele check-up dos 40 anos e das seguradoras. Os baby-boomers engordaram e alguns enriqueceram. Os esquerdistas viraram capitalistas. Os primeiros amigos começaram a morrer, cedo demais para a morte dos humanos e tarde demais para a morte dos deuses. Com doenças assustadoras, sida, cancro, enfarte, AVC. É aí que começa a mania da saúde, no medo da doença. E da morte em hospital. A partir de certa idade, a única decadência é essa, e não a gloriosa decadência da juventude. Um bêbado aos 50 não tem graça. Uma cirrose ainda menos. Dois maços também não. Directas e ressacas a partir dos 40 são piores que ataques de sarna. A partir dos 50 são piores que o vírus Ébola. Começa-se a entrar na mania da saúde e a saúde é como a droga, torna-se um vício. Sabe bem acordar sem catarro e comer saladas, e se alguém me dissesse isto aos 20 anos tinha vomitado com desgosto como os decadentes. Há que escolher entre os bróculos e a colonoscopia. Lembram-se do guedelhudo dos Jethro Tull? Do "Thick as A Brick"? Tem um negócio de salmão na Escócia e ficou milionário. O salmão é bom. Bestialmente saudável.

Clara Ferreira Alves