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Clara Ferreira Alves

A longa mão de Deus

Se fosse ao Governo, ia a Bruxelas com este argumento. Deus é um vulcão adormecido.

Clara Ferreira Alves (www.expresso.pt)

Existem cristãos que acreditam que Deus gosta que sejamos ricos e que é ele, na sua Divina Providência, que é o Dono de Todo o Ouro e Toda a Prata do Mundo. O maior capitalista, digamos assim. Em igrejas da América, pastores pregam para acreditarmos na prosperidade todos os dias e, com a bênção divina, sairmos da dívida e da destituição. A Igreja portuguesa é católica e não sei se isso nos exclui automaticamente, com papas visitantes e Fátima, deste Deus Tio Patinhas. Agravando a nossa penúria. Deus é misericordioso. Segundo alguns evangelistas, e de todos os desvarios e cretinismos da religião os dos evangelistas são os mais práticos, Deus existe e está por trás de tudo o que fazemos, incluindo ser sniper no Afeganistão e matar talibãs. Uma "Vanity Fair" trazia um trabalho do jornalista William Langewiesche sobre um sniper no Afeganistão, dando pelo nome falso de Crane, que via em pequenos sinais o aceno do Senhor que combatia ao seu lado. Langewiesche: os que você mata estão aqui pela mesma razão. Crane: Mas Cristo ressuscitou ao 3º dia e ainda hoje se pode visitar o túmulo de Maomé. No alvo.

Até um miúdo afegão com um cartaz ao pescoço a dizer "o Afeganistão é perigoso mas pelo menos não é a casa de Michael Jackson" pode ser interpretado como um sinal divino. Embora o cartaz tivesse sido colocado por soldados americanos necessitados de alívio cómico na monotonia da guerra. Deus: vou dar-lhes a ideia do cartaz, para eles se rirem um bocado.

O meu favorito desta escola do pensamento positivo é o pastor Joel Osteen, que prega na maior das congregações americanas do género, em Houston. Joel Osteen, pastor multimédia e multimilionário, é um tipo escorreito e simpático, com cara de cantor pimba em Hollywood, casado com uma loira tão devota como ele, e mãe dos seus filhos. São ambos pregadores e os livros de Osteen, co-assinados com a mulher, vendem milhões. O pensamento mágico (para citar a grande Joan Didion, autora de um dos melhores livros sobre a perda e a morte, "O Ano do Pensamento Mágico") dos Osteen é mais ou menos o que preside ao best-seller "O Segredo". Pensem com força naquilo que desejam e o Universo dá. Ou Deus. Deus dá. No "Segredo" havia um pregador que dizia que quando desejava muito um lugar de estacionamento minutos depois arranjava. Ou um táxi vazio. Experimentei este método em Lisboa e descobri, cientificamente pode dizer-se, que dá resultado. Fiquei umas duas horas à espera de Godot e arranjei. Pode demorar um mês, mas o táxi há-de vir e o pior que pode acontecer é perdermos o avião ou o comboio.

Regressando aos Osteen, a família feliz, o pior que podemos dizer sobre eles é que não têm um penteado moderno. São sorridentes, articulados, felizes, e acreditam no que pregam. Mostram as suas bênçãos, casas, aviões privados, piscinas, e dizem que todos podemos ter aquela vida, desde que a desejemos muito e acreditemos em Cristo. Está ao nosso alcance.

Podemos ter dúvidas, claro. O próprio Crane, o sniper do Texas que mata pashtun a 806 metros sem falhar, apesar de não gostar de ver o jacto de sangue a esguichar da cabeça explodida do inimigo, diz com certa lógica que se Deus criou o Wyoming, Montana e até a Suíça, por que diabo foi centrar a Bíblia no Médio Oriente? Um lugar conhecido pelos seus problemas. Concordo com ele. Não é boa ideia ter posto o Santo Sepulcro perto de Al-Aqsa e do Muro das Lamentações. E que diria o bom do Osteen sobre isto? Temos de aceitar o trabalho de Deus seja ele qual for, em vez de nos deixarmos vencer por ele, e em seguida temos de desejar mudar as coisas, o mundo, etc., para melhor. Desde passar de um T-zero nos subúrbios para uma quinta com courtsde ténis e três piscinas até à pax afegã.

Um pouco deste protestantismo pragmático dava jeito na Europa. Podíamos começar por olhar para o vulcão na Islândia como uma vingança poética do Senhor, visto que os ingleses, que tão mal trataram a Islândia, têm sido os mais prejudicados com a nuvem de cinza. Aqueles que transformaram a Islândia das pescas e da extracção de alumínio num casino dominado pela ganância tiveram todos os aeroportos encerrados.

Se Deus interfere no Afeganistão, apurando a pontaria de Crane rumo à cabeça dos talibãs, coisa que ele (Crane) faz sem gozo, porque não há-de repor algum equilíbrio nos egoísmos nacionais da Europa? Se continuarem a tratar mal a Grécia, e por essa ordem de razão, Portugal, Deus é bem capaz de se vingar. Se fosse ao Governo, em vez de desmentir o Stieglitz e os tipos que dizem que estamos falidos, ia a Bruxelas com este argumento. Deus é um vulcão adormecido.

Texto publicado na edição da Única de 24 de Abril de 2010