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Nicolau Santos

O sucesso de Gago e da Cotec

Nicolau Santos (www.expresso.pt)

Renato Correia. O nome não lhe diz nada. No entanto, fez algo de que o país precisa desesperadamente: inovar. Com o projecto Solução de Rotulagem em Braille para Deficientes Visuais ganhou o prémio Chairman's Award, que distingue um projecto inovador dentro do Grupo Sonae, onde Renato trabalha - prémio que lhe foi entregue por Belmiro de Azevedo. Aliás, o FINOV, Fórum de Inovação da Sonae é realizado anualmente e aí são apresentados e premiados projectos inovadores realizados nas várias empresas do grupo.

Felizmente, a boa notícia nesta área não se restringe ao Grupo Sonae. Na verdade, constata-se um acréscimo contínuo do número de empresas portuguesas com actividades de Investigação e Desenvolvimento (I&D), que passou de 940 em 2005 para mais de 1700 em 2008. O investimento das empresas quase que triplica entre 2005 e 2008 e cresce 22% entre 2007 e 2008, alcançando €1,2 mil milhões. A despesa das empresas em I&D representa agora 0,76% do PIB (0,62% em 2007), significando cerca de metade da despesa nacional total nesta área.

Em consequência, a despesa total do país em investigação atingiu 1,51% do PIB em 2008, um total de €2,5 mil milhões, valor que supera os níveis de despesa em I&D registados em Espanha (1,27%) e Irlanda (1,31%) em 2007.

Como foi possível este milagre, num país avesso ao risco e à inovação? Em primeiro lugar, com uma medida de bom senso: a reintrodução no Verão de 2005 do sistema de incentivos fiscais à I&D nas empresas, SIFIDE, que foi actualizado e aperfeiçoado em 2008. O sistema possibilita uma dedução fiscal que pode atingir 82,5% do investimento em I&D e é um dos mais competitivos da Europa. Resultado: desde 2005 mais do que duplicou o número de empresas que a ele recorreram relativamente ao período 1997-2003.

Em segundo, com a manutenção da política de apoio ao desenvolvimento científico e tecnológico que vem sendo seguida por este Governo desde 2005 - e, o que não é menos importante, com a manutenção de Mariano Gago como ministro da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior desde aquele ano, garantindo a coerência dessa política e a persistência nos objectivos. Esta é, aliás, a prova, mais uma, de que para obter resultados é necessário manter o rumo e é preciso tempo.

E, em terceiro, a estes resultados não é indiferente o trabalho notável desenvolvido pela COTEC, no sentido de promover o esforço das empresas em I&D e Inovação, não esquecendo a alteração que conseguiu em Bruxelas sob a forma como em pequenas e médias empresas de países como Portugal, Espanha e Itália deve ser contabilizado o esforço em I&D.

Os resultados estão aí: o número de patentes portuguesas registadas no Gabinete Europeu de Patentes, mais do que triplicou face a 2004; foram registados 1500 novos doutoramentos em 2008, mais 50% que em 2003, 51% dos quais realizados por mulheres; concretizaram-se 4,5 novos doutoramentos nas áreas de ciência e engenharia em cada dez mil habitantes entre os 25 e os 34 anos, alcançando-se a média europeia neste indicador; o número total de publicações científicas referenciadas internacionalmente quase que duplicou desde 2004; e o número de investigadores na população activa ascendeu a 7,2% em 2008, ultrapassando os níveis relativos de 2007 do Reino Unido, Alemanha e Holanda, assim como a média europeia de 5,8 investigadores por cada mil activos.

Mas mais do que os resultados, é a tendência que conta. E a tendência vai no sentido excelente. Esperemos que a crise não a interrompa - porque é por esta via que sairemos da crise.

Vamos ao pote de mel?

Caro leitor, imagine que as suas dívidas aos bancos no fim de cada mês são quatro ou cinco vezes o seu salário; que as despesas com os miúdos, alimentação, carro, empregada, etc., fazem com que sobre sempre mês (e cada vez mais...) ao ordenado. E que se tiver aumento este ano é de 1,5% e olha lá! Você arrepela os cabelos, puxa pelas meninges e conclui que desta vez é que tem de ser. Vai ter mesmo de vender aquela caixa debruada a ouro e com brilhantes que a sua avó lhe deixou em herança - e esperar que entretanto as coisas melhorem.

Pois agora, transfira este cenário para o país. Aumentar impostos? A gritaria será enorme. Cortar despesa? Dá um trabalhão e gritaria. Que fazer então? Você começa a olhar para o pote de mel, que lhe resolve metade do défice. Vai dar uma enorme polémica. Mas parece mesmo a solução ideal... O pior é se depois o défice e a dívida voltam a descarrilar e não há mais caixas para vender. Mas nessa altura só o povo será o mesmo. O Governo já será outro.

Porque António Mota tem razão

Mal ou bem, as empresas de obras públicas estão associadas às sucessivas derrapagens orçamentais dos projectos que executam. Centro Cultural de Belém, Casa da Música, ponte Vasco da Gama, metro do Porto são alguns dos exemplos do descontrolo a que se chegou e que o cidadão nunca consegue perceber se são da responsabilidade das construtoras ou do Estado, que coloca a concurso um projecto, a que depois soma sucessivas alterações.

Contudo, na recente decisão do Tribunal de Contas de recusar o visto a dois troços de auto-estrada, quem tem toda a razão é o presidente da Mota-Engil. Com efeito, é inadmissível que obras que começaram há um ano sejam agora suspensas por uma decisão do TC, que contraria o acordo livremente assinado entre a entidade contratante (Estradas de Portugal) e a entidade construtora. E depois as parcerias público-privadas, como bem lembrou António Mota, foram aprovadas no Parlamento. Se o Estado entende que elas são lesivas do seu interesse, só tem de queixar-se de si próprio e dos seus representantes porque aprovaram uma mau diploma. Não pode é servir-se disso para colocar tudo em causa - até porque, no fim do dia, quem acaba sempre por pagar a factura é o contribuinte.

Inov Contacto ou algo a correr bem!

Sabe que todos os anos 550 jovens portugueses conseguem estágios profissionais no estrangeiro? E que esses estágios são solicitados metade por empresas portuguesas e metade por empresas estrangeiras? E que o referido programa foi distinguido como best practice na área do Management Development Programmes e sub-área Graduate Programmes por peritos internacionais? E que é considerado um case-study e faz parte de uma publicação de boas práticas da Entreprise and Industry Directorate-General da Comissão Europeia que visa apurar como as políticas públicas podem apoiar as PME no seu esforço de crescimento internacional?

Pois é. Chama-se INOV Contacto - Estágios Internacionais para Jovens Quadros - e é promovido pelo Ministério da Economia, apoiado pela União Europeia e gerido pela AICEP. Funciona há vários anos e, devido ao seu sucesso, o Governo decidiu em Fevereiro de 2008 aumentar o número de estágios de pouco mais de 100 para 550. Nem tudo vai mal no reino de Portugal.

Tété, alegria de lisboa

Se o Chapitô é hoje um ex-líbris de Lisboa, uma espécie de Gulbenkian para as artes circenses, o jazz e outras, ponto de referência para inúmeros estrangeiros que visitam a capital portuguesa, deve-o sem dúvida a Teresa Ricou. Colam-lhe o rótulo de primeira mulher-palhaço do burgo. Foi-o e com inegável talento. Mas é muito mais do que isso - é a alma e o corpo de um espaço único de convívio multicultural (agora que acabou o B.Leza...) com uma vista deslumbrante sobre Lisboa.

É a história dessa saga e o registo biográfico de Teresa Ricou que está plasmada em "Teté - A Estória da Pré-História do Chapitô", da autoria de Paula Moura Pinheiro (registo biográfico) e Maria João Brilhante (coordenação da pesquisa histórica), com concepção e design gráfico de Henrique Cayatte, um livro lançado ontem à noite no Chapitô. Seguir-se-ão "Chapitô - A História de um Projecto" e outro sobre História do Circo Contemporâneo em Portugal.

Até lá e sempre, viva a Teresa Ricou!

 

Aristóteles, visita da casa de minha avó,

não acharia esquisita esta forma de estar só

esta maneira de ser

contra a maneira do tempo

esta maneira de ver

o que o tempo tem por dentro (...)

José Carlos Ary dos Santos - Arte Peripoética
  

Nicolau Santos

Texto publicado na edição do Expresso de 28 de Novembro de 2009