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Nicolau Santos

Dias de cão e de especulação

Nicolau Santos (www.expresso.pt)

Simon Johnson é uma alimária. Comparar a situação portuguesa à da Argentina quando faliu em 2001, não é só de mau gosto: é de profunda ignorância. O ex-director do FMI não deve saber o que é a moeda única. Ou melhor, sabe muito bem. Mas faz parte daquele clube norte-americano que nunca conseguiu aceitar a afirmação internacional do euro, que se tornou em pouco tempo uma importante moeda de pagamento a nível internacional, ombreando com o dólar - e que o quer atacar a partir dos seus elos mais fracos.

E só assim se percebe que uma economia que representa 1% (!) da economia apresente o segundo maior risco de causar instabilidade no euro. Não é preciso ser um mago em economia para perceber que os estragos que Portugal pode causar ao euro não têm nenhuma relação com o seu peso económico e financeiro na União Europeia. Por isso, o que está em causa não é a Grécia ou Portugal mas o euro. É a moeda única que está a ser fortissimamente atacada por uma conjugação de interesses anglo-saxónicos amalgamada entre os que querem que o euro impluda e os fundos de investimento de risco, que pretendem ganhar muito dinheiro à custa da desgraça dos outros.

Aliás, os que têm insistido no risco da economia portuguesa não cumprir os seus compromissos são todos de matriz anglo-saxónica: Simon Johnson, Wolfgang Muchau, do "Financial Times", Jacques Cailloux, do Royal Bank of Scotland, Landon Thomas, do "New York Times", Amrose Evans-Pritchard, do "Daily Telegraph" e os economistas Joseph Stiglitz e Nouriel Roubini. E quem nos tem defendido? O ministro alemão das Finanças, Wolfgang Schaüble, Jean-Claude Trichet, presidente do BCE, o comissário europeu dos Serviços Financeiros, Michel Barnier, e José Viñals, director do departamento de mercados de capitais do FMI.

Dito isto, convém sublinhar que não se pode tapar o sol com a peneira. Esperemos que a Alemanha defina, de forma inequívoca, que não deixará cair nenhum Estado-membro da zona do euro que entre em dificuldades. E que Bruxelas consiga colocar de pé um sistema de financiamento para prevenir situações semelhantes no futuro.

Mas não nos iludamos: cometemos erros graves e temos que os corrigir rapidamente. O primeiro foi que, no meio da fogueira ateada pela crise, o Governo apoiou quem devia e quem não devia. O défice não passou de 2,7% para 9,3% só por causa disso, mas grande parte tem a ver com isso. O segundo erro é que o Governo acreditou que 2010 não era ainda o ano ideal para retirar grande parte dos apoios que concedeu e reduziu o défice em apenas um ponto. Como se está a ver, a doutrina dominante a nível mundial, que recomendava os apoios do Estado quando esteve em causa o sistema financeiro, deixou cair imediatamente essa orientação logo que a esmagadora maioria dos bancos ficou a salvo e entrou de novo na mais pura ortodoxia financeira, exigindo défices zero ou quase, como se não tivéssemos passado por uma crise financeira e económica profundíssima.

Agora, não temos saída. Estamos fortemente acossados e temos de reagir à bruta, cortando drasticamente na despesa primária do Estado. Como? Sugestões não faltam e nenhuma é agradável. Mas é melhor sermos nós a decidir o que queremos fazer do que passarmos pela humilhação de serem outros a dizer-nos qual o caminho a tomar.

As forças da Natureza

É espantoso, quase incompreensível, como num mundo tão avançado científica e tecnologicamente como aquele em que vivemos, de repente, a Natureza nos venha lembrar quão frágeis continuamos a estar perante as suas forças. Presidentes da República, primeiros-ministros, banqueiros, empresários e gestores são impotentes perante essas forças, conferências e seminários internacionais cancelados, as reuniões de Bruxelas com a Grécia adiadas, mais de seis milhões de pessoas são afectadas, as companhias aéreas registam prejuízos históricos. E tudo isto porque na Islândia, um pequeno e frio país do norte da Europa, fracamente povoado e quase falido, um vulcão com um nome impronunciável (Eyjafjallajökull) entrou em erupção, lançando para o espaço milhões de cinzas que afectam os motores e instrumentos dos milhares de aviões, obrigando ao fecho de centenas de aeroportos europeus. O curioso é que, perante mais um problema com graves consequências económicas, já se ouça o clamor de vários sectores privados a pedir ajudas estatais. Realmente era o que faltava aos contribuintes: depois de terem salvo os bancos com os seus impostos, salvarem agora as companhias aéreas e o sector turístico. E quem salva os cidadãos?

A aventura inútil lá vai

Podemos perdoar um homem que faça uma coisa útil desde que não a admire. A única desculpa para fazer uma coisa INÚTIL é ser objecto de intensa admiração". A frase, atribuída a Oscar Wilde, está na contracapa do segundo número da revista "Inútil", uma extraordinária aventura no panorama editorial português, a que meteram mãos Maria Quintans, Ana Lacerda e João Concha. E aventura porque lançar uma revista de poesia e fotos no mercado português, que vai no seu segundo número, é obra. Melhor é que a sessão de apresentação deste segundo número, na renascida Buchholz, estava repleta de interessados. Nesta edição, em que Bernardo Sassetti é o convidado central, destaque para uma colagem de fotos de Ana Lacerda, poemas de Ana Zanatti, Tiago Bettencourt, Nuno Júdice e Maria Quintans, fotos de Rui Aguiar, Dick Sandess e Ivo Canelas e imagens de Ana Abrunhosa.

A aposta da Efacec

A Efacec inaugurou oficialmente esta semana uma fábrica de transformadores de potência nos Estados Unidos - um investimento de €132 milhões concretizado entre 2007 e 2009 - e está a preparar a construção de uma unidade de transformadores de média tensão no Brasil. Detida em partes iguais pelos grupos José de Mello e Têxtil Manuel Gonçalves, a Efacec é um caso de sucesso na área da internacionalização. Presente em quatro continentes (Europa, África, América e Ásia), a empresa adoptou a partir de 2009 o inglês como língua oficial, mas o processo de desenvolvimento dos equipamentos que produz continua a ser feito em Portugal, sendo depois replicado nos mercados externos. Além dos transformadores de potência, conhecidos como os Rolls-Royce desta área, a Efacec quer tornar-se um fornecedor de referência de conversores para as energias renováveis - e espera ultrapassar este ano os mil milhões de euros em vendas. O presidente, Luís Filipe Pereira, prevê que, dentro de três anos, 80% da facturação venha do estrangeiro. Não quer desistir do mercado interno, mas a previsão que faz é que Portugal cresça entre zero e 1% nos próximos cinco anos. Por isso, a aposta nos mercados externos ganha ainda maior relevância. Confirma-se: as crises criam grandes oportunidades.

A Vila Galé que Jorge comanda

A Jorge Rebelo de Almeida deve ter-lhe custado muito não estar presente na inauguração oficial do seu 22º hotel, o Vila Galé Coimbra, que aconteceu no passado sábado. Culpa do vulcão islandês, que reteve a comitiva portuguesa que acompanhou o Presidente da República à República Checa e que ele integrava. Isso, contudo, não tira brilho ao extraordinário crescimento do Grupo Vila Galé, um grupo hoteleiro de capital totalmente português, que gere 22 unidades (17 em Portugal e cinco no Brasil), num total de 10 558 camas e dando emprego a 1900 colaboradores - e que integra as 250 maiores empresas hoteleiras mundiais. Mais importante, contudo, é que Rebelo de Almeida continua a investir no país (estão a caminho o Vila Galé Sintra e o Vila Galé Tejo), que é uma forma de dizer que continua a acreditar em Portugal. E em Outubro é inaugurado o Vila Galé Cumbuco, no Ceará. Jorge Rebelo de Almeida é um grande exemplo para aqueles que não arriscam, só dizem mal do país e nada fazem para o melhorar.

Amo devagar os amigos que são tristes

com cinco dedos de cada lado.

Os amigos que enlouquecem

e estão sentados,

fechando os olhos,

com os livros atrás a arder

para toda a eternidade.

Não os chamo,

e eles voltam-se profundamente

dentro do fogo.

- Temos um talento doloroso e obscuro.

construímos um lugar de silêncio.

De paixão.

Herberto Helder, Aos Amigos

Texto publicado na edição do Expresso de 24 de Abril de 2010