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Comendador Marques de Correia - Cartas Abertas

Três cenários para o futuro político da Pátria, sendo que apenas dois deles são possíveis

Comendador Marques de Correia (www.expresso.pt)

Onde o nosso Comendador disserta, a pedido do jornal, sobre a possibilidade de Portugal ter de escolher uma via, e lamenta a impossibilidade (própria dos pobres) de escolher a terceira via.

Espero, meu caro director, que tenha passado a Páscoa com saúde, na companhia dos seus e no conforto da Igreja (desde que tal não seja interpretado à la irlandaise, se é que me faço entender). Pediu-me o meu caro amigo que expusesse nesta singela página quais as alternativas que se plasmam para o futuro do país, numa perspectiva pós-Pascoal. E como não estava a falar de Pascoal de Melo e das leis que homem fez no séc. XVIII, penso que a altura certa é esta. Aqui tem pois, os cenários:

Cenário I - Sócrates aguenta-se no poder. Ou seja, consegue fazer vingar o PEC, a história dos submarinos corre mal para certas personalidades da direita e o pessoal fica a perceber que isto tanto faz e... mal por mal antes o Pombal, como se dizia no tempo do Pascoal. Assim sendo, o PS apoia Manuel Alegre para Presidente, o Alegre faz umas críticas veladas ao Sócrates, o PCP e o Bloco também, o CDS sofre de 'submarinite' e o PSD, de Passos Coelho, vai-se reservando para mais tarde... e mais tarde... e mais tarde, sempre apostando no desgaste do primeiro-ministro, que se torna evidente. Cavaco Silva volta a ganhar as eleições, mas não tem margem para dissolver o Parlamento, uma vez que nem Passos Coelho nem Portas lhe dão abertura para agir nesse sentido. Assim sendo, apenas o Bloco e os comunistas apoiariam a dissolução, e Cavaco - claro! - resguarda-se e deixa andar. O país chega assim ao fim de 2011 e entra em 2012 (se o calendário maia não tiver razão) com José Sócrates já velho e com rugas, mas primeiro-ministro. Como então só falta um ano e meio para eleições, forma-se a convicção do 'já não vale a pena'. Sócrates termina o mandato, arranja um lugar no Painel Intergovernamental para as Alterações Climáticas da ONU e fica tudo satisfeito. Passos Coelho disputa as eleições com António Costa e ganha o melhor. O país, claro, entretanto, perdeu várias oportunidades, aumentou o défice e empobreceu.

Cenário II - Sócrates não se aguenta no poder. A economia começa a derrapar, os agentes económicos e o próprio PS começam a achar que o primeiro-ministro já faz parte do problema e não da solução, os submarinos são esquecidos, a Comissão de Inquérito diz que ele mentiu e Passos Coelho exige do Presidente que este tome medidas. Cavaco aguenta enquanto pode (até 2011). Sócrates não apoia oficialmente Alegre (que se demarca cada vez mais do PS e do Governo para não ir na voragem) - os socialistas invocarão que os partidos, como se sabe, não apoiam candidatos, ou outra teoria qualquer que na altura um deles se lembre. Logo depois da reeleição, com a direita a celebrar nas ruas e Alegre a responsabilizar o PS por fazer políticas de direita e, desse modo, contribuir para a sua derrota nas presidenciais, a situação torna-se insustentável. Cavaco dissolve o Parlamento, Sócrates é aconselhado a não se recandidatar, coisa que faz a custo, retirando-se para um lugar no Painel Intergovernamental para as Alterações Climáticas da ONU. Passos avança contra Costa e ganha o melhor. O país chega assim ao fim de 2011 e entra em 2012 (se o calendário maia falhar) com um novo Governo, mas com várias oportunidades perdidas, o défice numa desgraça e a pobreza a aumentar.

Cenário III - Vamos todos embora e só voltaremos lá para 2014. Entretanto, um senhor com muito dinheiro, tipo Bill Gates ou assim, paga-nos o défice e a gente volta para abandalhar isto tudo outra vez, enquanto vivemos mais uns anos à conta. Este cenário, como somos pobres (o que é injusto) não está à nossa disposição.

Texto publicado na edição do Expresso de 10 de Abril de 2010