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Comendador Marques de Correia - Cartas Abertas

O que a traço grosso parece mal, a traço fino parece bem, como o prémio do dr. Mexia

Onde o nosso Comendador reflecte sobre os mais de três milhões que o presidente da EDP recebeu, mostrando certa inveja, mas recolhendo a grandeza suficiente para explicar o porquê das coisas.

Comendador Marques de Correia (www.expresso.pt)

Pois, meus caros, a questão vista de longe parece desumanamente imoral. Um gestor, um simples gestor de uma empresa que é praticamente um monopólio e onde o Estado tem vastos interesses, recebe 3,1 milhões de euros em salário e prémios. O povo indigna-se, os cronistas verberam e os políticos interrogam-se. A traço grosso, o dr. Mexia, embora com os 3,1 milhões na carteira, está tramado - é um pária social!

Mas, se olharmos a questão a traço fino, vejamos o que cada um de nós deve ao dr. Mexia. Devemos, desde logo, a luz. Não a luz do sol, mas a luz da EDP.

Sem ele, meus caros, não haveria televisão, privando as senhoras de ver telenovelas, os cavalheiros de ver futebol e os indígenas de ver as notícias. Sem ele, meus caros, não haveria baterias, privando o sr. Godinho das conversas ao telemóvel, o sr. Pinto da Costa das encomendas de fruta e o dr. Pinto Monteiro de sonegar as escutas ao Parlamento. Sem o dr. Mexia, não haveria computadores, privando o engº Sócrates do Simplex e do 'Magalhães'. Sem ele não haveria nada das coisas que interessam, envilecem e engrandecem o país.

O dr. Mexia é, pois, um monumento nacional. Mas como o seu negócio é luz, é natural que ele próprio esteja numa semiobscuridade. Vejamos outro dos grandes recebedores nacionais - o Cristiano Ronaldo, que deve ganhar mais do que o dr. Mexia. O rapaz madeirense brilha em tudo o que é revista e jornal por mandar uns chutos na bola e fazer umas reviengas, levando o povo a pensar que é de sua condição ser rico e levar a massa para casa. Mas que nos dá ele em troca, salvo esses passos de magia pura com que o admirador de futebol se delicia? Nada! Acaso a mulher que está a ver a telenovela (às custas, já se viu, do dr. Mexia) e se zanga com o marido que quer ver o futebol, daria um cêntimo que fosse para o salário do CR9? Perguntem-lhe agora quanto daria (e na verdade quanto dá) ao dr. Mexia, para não ficar às escuras...

Mas há os indignados! Os indignados do costume! Vem um e diz que é imoral! Vem outro e diz que é vergonhoso! Vem um terceiro e diz que é lamentável. E a gente investiga e vê que um já andou às sopas do Estado a migalhar uns subsídios; que outro se aboletou com uma casa da Câmara, como se fosse pobre; que um terceiro andou a fazer negócios com gente suspeita; que um quarto é, ele próprio, suspeito de fazer negócios com o outro e por aí fora com muitos etc.

Ao menos o dr. Mexia faz tudo às claras, ou não trabalhasse ele na Companhia da Luz! O dr. Mexia pega nos objectivos, no EBITDA, nos resultados líquidos, na margem de contribuição e em mais quatro chavões contabilísticos, mete tudo na bimby (que aliás só funciona por causa dele) e saem-lhe 3,1 milhões.

Visto assim, em traço fino, o dr. Mexia vale cada euro que ganha. E eu juro que não cheguei a receber 10% do prémio que ele recebeu para me pôr para aqui a tecer loas ao seu merecimento. Nada disso. Se por acaso amanhã for nomeado qualquer coisa na EDP, deveu-se ao meu esforço e ao meu cuidado currículo e a nada mais. Se, no âmbito dessas funções for bafejado com um milhãozito, também não sou menos do que dr. Rui Pedro Soares, que não sendo da EDP é outra grande luminária.

Neste país havemos de ser todos ricos. Nem que tenhamos de ser todos boys. Já há aí vários a treinar.

Texto publicado na edição da Única de 17 de Abril de 2010