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Comendador Marques de Correia - Cartas Abertas

O homem que via passar os comboios e que não era o Kees Popinga de Georges Simenon

Onde o nosso Comendador, gamando descaradamente um título de Georges Simenon, nos conta a história de um homem que queria tanto ver o TGV, mas tanto, tanto que... o melhor é lerem.

Comendador Marques de Correia (www.expresso.pt)

Havia um homem, mas não era aquele Kees Popinga, funcionário zeloso do livro de Georges Simenon, que também via passar os comboios. Esse homem via passar os comboios em Portugal e chamava-se, vá lá, por exemplo, Manel. Ou António...

O Manel, ou António, já tinha visto passar muitos comboios. Os da linha de Sintra, que passam pelo meio de Agualva/Cacém e Massamá, morada do nóvel líder do PSD Passos Coelho; os da linha de Cascais, que chegam a uma estação ao pé da praia onde Marcelo Rebelo de Sousa, vélhel (a palavra foi inventada por mim) líder do PSD toma banhos de mar; os da linha do Tua, que vem parar cá baixo ao Douro; os da linha do Pinhão, que já vem cá por baixo rente ao Douro; os da linha do Sul e Sueste, que param na Funcheira; os da Beira Alta, que passam por Mangualde, rente à casa que foi de Jorge Coelho; os do ramal de Fafe, que ia de Nine a Fafe; os do ramal de Santa Comba, que ia da terra de Salazar até Viseu; os da linha do Norte, que passa em apeadeiros e estações com nomes engraçados como Braço de Prata, Setil, Entroncamento, Lamarosa, Alfarelos, Pampilhosa - enfim, o nosso Manel, ou António, já se tinha colocado em todos estas estações e mais naquelas garbosas do Alentejo, como Fronteira, que chegou a ganhar o prémio de estação mais florida de Portugal, que era um concurso que se fazia, porque as estações dos caminhos-de-ferro eram sinais de progresso e riqueza.

De modo que o António, ou Manel, ficou bastante deprimido quando viu estações a fechar, a arruinar-se, a definhar, a ruir, a esboroar-se. A ferrugem atacava os ferros, os musgos espalhavam-se pelos caixilhos de madeira das janelas, as manchas de humidade alastravam nas paredes de alvenaria e os azulejos desprendiam-se das paredes. O desespero apoderou-se dele e só não se matou porque nessas estações não passava sequer um raio de um comboio que o pudesse matar.

A depressão foi, porém, coisa de pouco tempo. Logo anunciaram ao António, ou Manel, que vinha aí o TGV. Primeiro que havia cinco linhas - e ele foi logo estudar os mapas para encontrar os melhores pontos de observação; depois eram só três, e ele riscou do mapa vários miradouros sobre o TGV e centrou-se nas linhas Lisboa-Porto, Porto-Vigo e Lisboa-Badajoz. Depois, veio o PEC e ficou só esta última linha. Mesmo assim, o António, ou Manel, ou até Jaquim não se deixou abater. Arranjou, entre o Poceirão e Caia uma série de pontos para ver o comboio a passar e mais um local elevado para o ver na nova travessia do Tejo.

Esperou, esperou, esperou... E, para entreter o cérebro, com medo que a massa encefálica se dedicasse à preguiça, foi fazendo contas. O que se tinha gasto a modernizar a linha do Norte, mais o que se estava a gastar para fazer o TGV, mais o que se tinha desperdiçado ao acabar com uma série de linhas que já existiam desde o tempo de Fontes, mais os edifícios, as gares, os apeadeiros, os entroncamentos, as agulhas todas essas coisas que desperdiçámos ao longo de tantos anos dava... bem dava para cobrir o défice português, ou quase, e dava e sobrava para já termos um TGV desde a década de 90 do século passado.

O Manel, ou António, ou Jaquim, ou talvez José, fazia as contas e nem dava pelo tempo passar. Quando levantou a cabeça de fazer tanta soma e divisão e multiplicação, teve uma visão do futuro: o seu neto a ver as estações do TGV já sem pintura, abandonadas, como ele viu as que eram do tempo do seu avô. E pensou lá com ele: estes tipos gastam tanto dinheiro mal gasto...

COMENDADOR MARQUES DE CORREIA

Texto publicado na edição da Única de 2 de Abril de 2010