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Comendador Marques de Correia - Cartas Abertas

A importância do poder da mente e seus derivados na luta política hodierna

Onde o nosso Comendador, não desprezando as várias manifestações de poder, incluindo as divinas, salienta que o poder da mente é um dos mais desenvolvidos e utilizados na política do nosso tempo.

Comendador Marques de Correia (www.expresso.pt)

O poder é algo difícil de definir. Por um lado é uma possibilidade, por outro uma responsabilidade. Por outro, ainda, é uma maçada se houver jornais por perto ou câmaras de televisão a apontar para os lábios, no momento em que o detentor do poder está a ter um desabafo relacionado com a tia de um conhecido deputado, senhora tia essa que, aliás, não tem culpa nem do sobrinho que tem, nem do Governo que a governa.

Mas o poder exerce-se de várias formas, e há que analisar cada uma delas detalhadamente, aspecto que deixarei para aqueles que, não sabendo tanto como eu, se podem ocupar dessas coisas comezinhas. Eu apenas analisarei superficialmente uma série de poderes, para depois me deter sobre o que me parece mais importante na política actual - o poder da mente.

O primeiro poder a levar em conta é o poder legislativo. Cabe ao Parlamento, se a palavra 'tia' não for pronunciada. No geral, não vale nada, porque depois verifica-se que esse poder foi mal exercido e volta tudo para trás.

O segundo poder é o Executivo e cabe ao Governo, caso não existam imposições do FMI, de Bruxelas, dos lóbis diversos ou da vizinha de um ministro qualquer. No geral, é também mal exercido porque o Governo não costuma perceber nada dos assuntos sobre os quais versa, preferindo pedir pareceres a advogados. Estes, embora também não percebam nada do assunto, fazem pareceres que dão razão ao ministro que os pediu. O qual, continuando sem nada perceber do caso, já tem um parecer a concordar com ele para o exibir perante o Parlamento ou uma comissão parlamentar, aliás constituída por pessoas que absolutamente nada sabem da questão. O resultado raramente é assinalável.

O terceiro poder é judicial, mas não costuma ser grande coisa porque os magistrados, em regra, estão zangados com o mundo e querem por força prender um primeiro-ministro nem que para isso tenham de o acusar de atentar contra o Estado de Direito, coisa que ele provavelmente não faz, ou talvez faça, mas ninguém tem a certeza; o quarto poder é execrável e nem sequer vou falar dele, porque seria promover uns incompetentes sem currículo nem legitimidade.

Pelo que passamos ao quinto poder - o divino. Este, já tem alguma substância tanto mais que, perante a maior parte das decisões dos poderes anteriores, as pessoas comuns costumam recorrer a ele, exclamando: "Ó valha-me Deus! Olha o que estes tipos decidiram!"

Mas foi o sexto poder, o poder da mente, que me levou a alinhar este conjunto de palavras, na tentativa de demonstrar que é o único que solidifica a sociedade. Por exemplo, quando o primeiro-ministro (este ou outro, tanto faz) diz que não vai aumentar impostos, o que pensam os cidadãos? E quando se afirma que a situação em Portugal, comparativamente, é das melhores da Europa? E quando se insinua que a transparência neste país é cristalina e a democracia funciona sem falhas? E quando se proclama que o Governo é responsável e sério?

Perante estas questões, com que deparamos diariamente, o cidadão comum pensa numa palavra: mente!

É este o poder da mente! Eles usam-no e dele abusam para isto e para aquilo. Se não fosse o poder da mente, na última campanha eleitoral teríamos sido avisados deste défice enorme. E nas duas anteriores seríamos devidamente informados de que os impostos iriam subir. O poder da mente é enorme. Sem o que deriva da mente - a mentira - não havia sociedade, não havia cimento, não havia paz. É por isso que podemos classificar este Governo como um conjunto de... (esqueci-me do que ia dizer).

Comendador Marques de Correia

Texto publicado na edição da Única de 24 de Abril de 2010