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António Pires Lima

Direitos adquiridos

António Pires Lima (www.expresso.pt)

É curioso o desânimo que se abateu sobre a generalidade da classe intelectual europeia que tem as suas raízes políticas na esquerda. Vivemos na ressaca da maior crise do sistema capitalista dos últimos 80 anos. Um período que se julgaria propício para o ressurgimento das teses que advogam a intervenção do Estado na economia e o reavivar da ideologia socialista vencida com a queda do muro de Berlim.

Compreensível este desalento. Como se vai percebendo é na Europa que se torna mais difícil antever um ressurgimento económico que sustente o crescimento e a recuperação de emprego. Os sinais são bem mais positivos nos Estados Unidos, onde a crise financeira se manifestou primeiro, mas também nos países emergentes, todos eles já numa rota de crescimento que parece imparável. A crise veio pôr a nu aquilo que já se intuía: num mundo global a economia da Europa não é competitiva, acelerando a transferência de poder para o mundo emergente.

A ausência de uma unidade política mínima não ajuda a credibilizar o euro, moeda seriamente ameaçada com a crise financeira na Grécia e do mais que a Sul se está para ver. Do ponto de vista político, apesar do muito que foi construído ao longo das últimas décadas, a Europa é um tigre de papel comparada com nações como os EUA, a Rússia ou a China. E o poder político é hoje um factor de competitividade económica. As economias emergentes de maior sucesso têm como base a capacidade de o poder político interagir - ou, descaradamente, interferir - com o poder económico. Para um europeu, não é fácil admitir uma nova ordem mundial com a preponderância das nações emergentes, tantas vezes sustentadas em democracias tão peculiares e com economias de mercado sujeitas a regras tão enviesadas.

Coesão política à parte, creio que na Europa subsistem outras razões de descompetitividade talvez mais passíveis de superação a nível nacional. Desde logo estou a pensar na cultura dos 'direitos adquiridos', de que Portugal é um belo exemplar, contrária à essência da competitividade. Na vida, o único dado adquirido é que nascemos para um dia... morrermos. Ora, uma cultura que dá por adquirido e gratuito o ensino até ao fim da licenciatura, o trabalho uma vez conquistado, o subsídio sempre que o trabalho excepcionalmente falha, é inimiga da competitividade. Sobretudo quando se vê confrontada com outros mundos onde o mérito é valorizado e premiado - às vezes de forma selvagem, diga-se - ou onde cada passo dado por um jovem é conquistado a pulso. A Europa amoleceu no caldo dos direitos adquiridos. Sem risco, tensão e pressão não se formam gerações vencedoras.

Adoro viver na Europa e em Portugal. Adoro muitos dos direitos que nos são reconhecidos e vi recentemente, com emoção, Barack Obama aprovar nos EUA o direito a cuidados de saúde em voga na Europa há décadas. Mas algum equilíbrio precisamos de criar entre direitos e competitividade que devolva à Europa a vontade de se reproduzir, estudar, trabalhar, poupar e investir. Direitos adquiridos em excesso e a esperança perdida no futuro: este é o legado que deixaremos aos nossos filhos se os nossos credores não nos obrigarem a mudar de vida. Será que, ao contrário do que diz Obama, nós não podemos ter esperança?

Texto publicado na edição do Expresso de 10 de Abril de 2010