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António José Seguro

Os desafios

A Pedro Passos Coelho e ao seu círculo político de confiança colocam-se dois desafios. A curto prazo e, mais relevante e estrutural, a médio e longo prazo.

António José Seguro (www.expresso.pt)

O PSD acaba de eleger o seu novo líder. O quinto em seis anos.

Ao PSD coloca-se o desafio de olhar para Pedro Passos Coelho como mais um líder a prazo ou como o candidato a primeiro-ministro nas próximas eleições legislativas, unindo-se em torno dele e do seu projecto.

Por sua vez, a Pedro Passos Coelho e ao seu círculo político de confiança, colocam-se dois desafios. A curto prazo e, mais relevante e estrutural, a médio e longo prazo.

A curto prazo o desafio é o da clarificação. Pedro Passos Coelho foi muito contundente contra o actual Governo no decorrer das eleições internas. Várias vezes falou em moção de censura. No entanto, na sua primeira intervenção, a primeira ideia que transmitiu é que não pretende "abrir crises políticas".

Fica por clarificar se a nova direcção do PSD vai apostar na ruptura com o actual Governo ou no compromisso.

O segundo desafio, a médio e longo prazo, é muito mais relevante.

Pedro Passos Coelho e muitas das pessoas que o rodeiam fazem parte de uma nova geração. São pessoas cuja formação política foi feita depois do 25 de Abril de 1974.

Do ponto de vista ideológico, já sabemos algumas das marcas desta nova liderança do PSD. Das quais divergimos.

Coloca-se, no entanto, uma grande expectativa sobre o que de novo e de diferente podem trazer para a esfera da discussão pública. Não exclusivamente político-partidária. Por exemplo, o relacionamento com a "sociedade civil", novas questões, novos valores, a credibilidade política e qual é o sentido ético do exercício do poder.

Numa pergunta: à mudança geracional vai corresponder uma alteração significativa da forma de fazer política e uma adequação à actual sociedade? A procura de votos aconselhará a que esse processo de diferenciação seja feito. Mas, para ser conseguido, terá de ser autêntico e consequente. Este é um dos maiores desafios da nova liderança do PSD porque, para muitos jovens quadros, também corresponde a uma grande esperança de uma outra acção política.

No meu entender, esse desafio passa por uma nova cultura. Uma nova política feita para e com as pessoas. Uma política que privilegie o debate das ideias e recuse a fulanização. Que olhe para os partidos políticos como indispensáveis ao funcionamento da democracia, mas que estes saibam conviver com outras formas de participação por parte dos cidadãos que não querem estar inscritos num partido. Os próprios partidos carecem, urgentemente, de refrescamento, buscando novas formas de organização e de funcionamento.

Antes do 25 de Abril, várias gerações de portugueses lutaram para concretizar o sonho de viverem num Portugal livre e democrático. A nova geração de políticos deve ter a ambição de concretizar outros sonhos: o da credibilização da política, o do combate às desigualdades sociais, o do crescimento económico, o do desenvolvimento sustentável, o do respeito pelas pessoas, o de sermos um país a sério e que se leva a sério.

Texto publicado na edição do Expresso de 2 de Abril de 2010