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Editorial

A vergonha da Europa

Quando o mal surge, as causas parecem sempre razoáveis. Mas se é fácil entender o horror da perseguição aos judeus, que dizer, hoje, das perseguições aos ciganos?

Editorial (www.expresso.pt)

Os europeus têm de entender-se sobre a sociedade em que querem viver. Será razoável reivindicarmos que as leis sejam iguais para todos e aplicadas sobre cada indivíduo, sem distinção de credos, etnias, origens, sexo ou idade. Será, ainda, razoável que essas leis sejam impositivas para todos e aplicadas de forma igual.

Estas noções, que nos vieram do iluminismo do séc. XVIII e foram aplicadas primeiro na revolução americana e depois na francesa, são hoje postas em causa, como já o foram tantas vezes na História da Europa. O que Nicolas Sarkozy está a fazer em relação aos ciganos (bem como outros países europeus, como a Suécia, por exemplo) é uma vergonha para quem conhece a história deste continente.

Não se põe em causa que há muitos - demasiados - ciganos que vivem nas margens da lei, na ilegalidade, que formam associações ínvias e redes suspeitas. Devem combater-se. Mas não se aceita que todos os ciganos, por esse simples facto, passem à condição de indesejados.

O mal quando surge vem mascarado de bem. Eis algo que a nossa tradição nos ensina. Felizmente, muita gente denuncia a situação de xenofobia que se desenha. Não só

a oposição de esquerda ao Presidente francês, como deputados do seu próprio partido; como ainda a Igreja francesa, através do arcebispo de Paris e o próprio Papa Bento XVI; ou a ONU e a União Europeia.

Quando o ministro do Interior francês apenas dá como argumento que a maioria dos seus conterrâneos apoiam o Presidente, tem-se a noção do nível a que chegou o debate.

Os princípios não são uma questão de maiorias. Se o fossem, tinha a Europa de se render a esse mundo tão maioritário onde os conceitos de tolerância são vistos como motivo de chacota ou sinal de fraqueza. Ou temos orgulho e defendemos a civilização tolerante que construímos, ou limitamo-nos a copiar a barbárie.

É a economia, estúpidos!

É coisa assente que as perspetivas nunca são tão trágicas como receamos nem tão boas como esperamos. Mas não vale a pena andar a enganar o futuro ou confundir o canto do cisne com o renascimento da fénix.

O que Sócrates tem dito da economia pode servir para animar. Ela não está tão má como os mais pessimistas diziam? Pois não! Mas será que tudo já passou? Longe disso! Os sinais de recessão adensam-se... Deles falam economistas insuspeitos como Stiglitz (prémio Nobel) ou Roubini; a agência de rating Moody's prevê que o nosso crescimento seja de 0,5% este ano, em grande divergência com a Europa, e o Banco de Portugal demonstrou que as despesas do Estado cresceram este ano 40%! A economia não é uma ciência exata, mas também não é uma ciência oculta. Não basta pronunciar palavras mágicas para que o país saia da crise.

Texto publicado na edição do Expresso de 28 de agosto de 2010