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Ruben de Carvalho

A bicicleta olissipográfica

É um erro absoluto pensar ou sequer insinuar que a bicicleta constitui mais do que um paliativo para o problema da mobilidade em Lisboa.

Ruben de Carvalho (www.expresso.pt)

De forma algo inopinada, os lisboetas viram-se confrontados nos últimos meses, por um lado, com acesa polémica e, por outro, frenética actividade construtiva em torno de um até então improvável tema: bicicletas!

O transporte por bicicleta nunca foi especialmente utilizado na nossa capital, ao contrário do que sucedeu noutros pontos do país. Aliás, é simples verificar como, antes de o desporto se transformar em puro negócio, o ciclismo teve expressões de prática popular em zonas onde exactamente a utilização da bicicleta era comum. Recordem-se casos tão distantes como Águeda, Tavira ou Alpiarça.

É evidente que os problemas então discutidos sobre as condições de Lisboa para uso deste veículo se colocavam de forma diversa há meio século: o recorte das colinas lisboetas; uma rede de transportes ao tempo razoável, embora com preços elevados para as classes trabalhadoras; e, em terceiro lugar, a bicicleta era uma máquina com deficiências tecnológicas e cara.

Estas condições sofreram, todas elas, modificações. Os biciclos foram melhorados profundamente, desde o peso e materiais aos dispositivos de mudanças e travões; a cidade alargou-se para zonas de planalto onde a tecnologia igualmente gerou extensas terraplenagens niveladoras; pese o determinante metropolitano, a rede de transportes urbanos colectivos degradou-se (e não só pelo conflito com o automóvel como por erradas opções de gestão).

A divulgação do cicloturismo, nascido das preocupações ecológicas, de novos relacionamentos com a natureza e da preocupação com o exercício físico, somou-se ao anterior para criar entre nós um quadro que se desenvolvera mais noutros países da Europa, onde as condições anteriores sempre foram mais favoráveis ao uso urbano da bicicleta.

Deixemos para outras núpcias a manifesta inconsciência quanto ao lançar no trânsito citadino um movimento mal estudado do ponto de vista de segurança e responsabilidades, a discussão das ciclovias, as suas mimosas implicações eleitoralistas, as suas tortuosas relações com o Corredor Verde de Lisboa, os erros de planificação e consulta pública na sua implantação (ouça-se os comerciantes, olhe-se, por exemplo, o absurdo da Av. do Colégio Militar). Deixe-se em suspenso (sublinhe-se, em suspenso, que aqui a questão é mais melindrosa) as nada inocentes confusões dos concursos públicos das bicicletas partilhadas de aluguer.

Há, contudo, uma questão de fundo imediata. É um erro absoluto pensar ou sequer insinuar que a bicicleta constitui mais do que um paliativo - positivo, mas paliativo - para o problema da mobilidade em Lisboa: a solução reside, continua a residir, na valorização, melhoria e embaratecimento do transporte colectivo. O resto é demagogia.

Texto publicado na edição do Expresso de 17 de Outubro de 2009