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Expresso

O ódio irracional

Primeiro dia do curso de comandos, é meia-noite. Marcha de uma hora, dois goles de água, “pode ser mais?”, não, e pela pergunta mais exercícios físicos de castigo. Dormem duas horas. Seis e vinte da manhã, pequeno-almoço, cinco bolachas e um doce. Água, não. Ginástica. Água, não. Instrução, técnica de combate, elevado desgaste físico, estão 32,4 graus. Quatros goles de água. Instrução, Ginástica de Aplicação Militar (GAM, que na gíria do exército significa Ginástica Até à Morte), elevado desgaste físico, estão 35 graus. Dois desmaiam. Para ver se é fingimento, atiram um deles para as silvas. Não, não era a fingir. De castigo: água, não. O exercício agora chama-se “Carrossel”, técnicas de combate, grande desgaste físico, estão 37 graus. Mais dois desmaiam, quatro estão a cair para o lado, um treme, vomita, vêm os socorristas. São 12h20, nas últimas 15 horas quase não houve descanso, bebeu-se o equivalente a uma garrafa de água pequena. Dois minutos para almoçar: uma lata de ração, um litro de água. Instrução, Tiro de Combate, intensidade física altamente desgastante, rastejar, rebolar, marcha hiperfletida, correr, cambalhotas, 48 graus de temperatura no solo. Água, não. Mais quatro desmaiam. Um chama-se Hugo Abreu, tem 20 anos. O médico do exército ordena: rastejem. Hugo não responde, está confuso, revela sede intensa, cefaleias, ansiedade, náuseas, vómitos, fadiga. Um enfermeiro observa-o, “ele está bem”. Mas Hugo não reage. Cospe em seco, delira. O instrutor coloca-lhe uma mão com areia na boca e diz “cospe lá agora”. Nada, não há reação. Enrola a língua, revira os olhos. É levado em braços para a ambulância. “É melhor levá-lo para o hospital”. Já não sai dali vivo.

Este relato resulta do despacho da procuradora que está a investigar a morte de dois militares no 127º Curso de Comandos. Cândida Vilar descreve um estado de exaustão pelo calor, stresse emocional e sentimentos de humilhação, num ambiente de intimidação e terror, de sofrimento físico e psicológico, de tratamento não compatível com a natureza humana, de desprezo, de tratamento de “pessoas descartáveis” por instrutores movidos por ódio patológico e irracional, contra instruendos que consideram inferiores por não serem ainda parte dos Comandos, cuja supremacia apregoam.

Se não fosse a morte de dois militares, este teria sido um dia normal nos Comandos. Haverá quem creia que é desfazendo homens que se fazem homens. Como há quem queira que acreditemos que a culpa é dos médicos e dos enfermeiros, manobra de diversão óbvia para proteger a instituição militar.

A procuradora quis prender os instrutores, o médico mas também o diretor do curso, o que tem a clara intenção de pôr em causa o próprio curso. Haja alguém. Para que as mortes de uns não morram no esquecimento criminal com outros nem matem as nossas consciências.
O poder político acobarda-se, não quer levantar palha contra as Forças Armadas. Virão ameaças duras que serão falinhas mansas e depois do 127º virá o 128º curso.

Acabe-se com o Curso de Comandos. E se ninguém cair, caia o ministro.