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Novo calote no BES

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Desta vez, a perda não é nacionalizada, é privatizada. A imagem interna sai valorizada, a imagem externa vai para a lavandaria. São “os mercados”, não são os contribuintes. Observamos uma engenharia complicada, mas é um calote simples. Foram perdidos mais dois mil milhões de euros no BES. E afinal havia alternativa

A primeira análise é a confirmação de que faltava ainda reconhecer perdas no antigo BES, os 4,9 mil milhões de euros injetados na resolução, nem há ano e meio, não bastavam. Isso obrigaria a um novo aumento de capital, hipótese que foi tentada na venda do banco. Fracassou. Veio o BCE e fez a conta: pelo menos mais 1,4 mil milhões de euros. Por isso, o Estado teria de entrar outra vez. Em vez disso, outros terão de sair de vez.

Antes chamávamos-lhos “investidores”. Agora tratamo-los por “obrigacionistas seniores”. De futuro serão credores da massa falida.

A comunicação feita esta noite pelo Banco de Portugal usa caneta financeira e pinça jurídica, mas traduz-se simplesmente nisto: os donos de dois mil milhões de euros de obrigações do BES arderam com o dinheiro. Ou com quase todo o dinheiro, uma vez que da venda do bolo de ativos do "banco mau" hão de sobrar umas migalhas. Depois dos que andaram a comprar ações do BES serem defraudados, os que andaram a comprar obrigações "seguras" foram enganados.

Há vários tipos de obrigações e as séniores têm prioridade no ressarcimento em caso de falência, têm portanto mais garantias do que as subordinadas. Essas, as subordinadas, já tinham à vida em agosto de 2014, juntamente com as ações do banco. Ir à vida foi ir para o BES mau. Ir à vida foi ir para o vale dos ativos mortos. Então, nessa resolução, a dívida subordinada foi sacrificada. Agora, nesta espécie de nova resolução, a dívida sénior também o é. Porque vai agora, se não foi então? Porque não foi então, se vai agora?

São boas perguntas. Talvez esta decisão devesse ter sido tomada logo em agosto de 2014, "fechando" o perímetro dos perdedores. Se o não foi, foi porque o quadro ideológico entretanto mudou. Primeiro, em Portugal, onde o governo de esquerda é mais favorável a perdas privadas que afetem a imagem externa do que o governo de direita. Depois, na União Europeia, que entretanto preparou uma rede de segurança para as dívidas públicas através do BCE. Se assim não fosse, amanhã os juros da dívida pública portuguesa disparariam. Assim, fica mais cara "apenas" a dívida dos nossos bancos.

Sim, esta decisão prejudica a tal "imagem externa" com que andámos obcecados durante anos. Nem é preciso esperar para ler o Financial Times ou o Wall Street Journal, mesmo quem concordar com a decisão vai frisar o risco que é investir em países como Portugal.

Em contrapartida, a decisão será politicamente aplaudida em Portugal, por desta vez poupar os contribuintes. Carlos Costa e Passos Coelho voltam a ter de dar explicações. Porque afinal era mesmo preciso mais dinheiro para o Novo Banco, ao contrário do que diziam. Porque agora se fez o que não se quis fazer há um ano.

Mesmo que este calote não nos doa, é um calote. E um calote não orgulha, envergonha. Isto é bom? Não, é sempre mau. Seria mais justo para os credores que, em vez de de perderem tudo, vissem os seus títulos de dívida convertidos em capital. O Banco de Portugal não quis. Provavelmente, os demais bancos não quiseram: perderiam posição acionista no Novo Banco, logo perderiam receita no momento da sua venda. Mas se não é bom, é melhor ou pior? É melhor. Sacar mais dois mil milhões aos contribuintes seria insuportável, agravaria hoje a dívida pública e amanhã os impostos para pagá-la. Para escândalo de fim de ano já bastou o Banif. Agora é escândalo na mesma. Bate é noutras portas - e são portas privadas.

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