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Nuno Crato

Antony Flew

Nuno Crato (www.expresso.pt)

Um excelente artigo de José Cutileiro, no Expresso da passada semana, trouxe-me a notícia de que o filósofo inglês Antony Flew tinha falecido. Referia-se aí o ateísmo do filósofo e a sua conversão ao deísmo, a crença na existência de alguma inteligência criadora do mundo, mas não necessariamente num deus que influenciasse a vida dos homens, como o Deus do cristianismo e de outras religiões.

Antony Flew nascera em Londres, em 1923, e tinha sido professor em Oxford e noutras grandes universidades. O seu ateísmo tornara-se lendário - "Theology and falsification", de 1955, foi, segundo alguns, o artigo filosófico mais lido da segunda parte do século XX. Por isso, a sua conversão, em 2004, foi tão polémica. O livro que a explica, "There is a God: How the World's Most Notorious Atheist Changed His Mind" (Harper, 2007), foi best-seller e semeou um debate filosófico intenso. Flew, que tinha sido mais sensível aos argumentos científicos do que aos metafísicos, baseou a sua mudança nas descobertas recentes da cosmologia e da física. Destacava o big bang e a ideia de que as constantes da física estavam "finamente sintonizadas" para permitir o surgimento da vida.

Tudo isto tornou Flew num dos filósofos contemporâneos mais conhecidos. Mas a minha admiração pelo pensador inglês vem de outras polémicas e de outros tempos. Nos anos 60, a dita "nova sociologia do conhecimento" e a dita "nova sociologia da educação" começaram a afirmar que todo o conhecimento é socialmente construído e que a educação deve deixar de se preocupar com a transmissão de conhecimentos pretensamente absolutos e questionar o saber.

Alan Blum, um dos sociólogos que Flew mais criticou, dizia que categorias como "casamento, guerra e suicídio só são vistas, reconhecidas e tornadas possíveis através da prática organizada da sociologia". Daí concluía que a sociologia não devia estudar um "mundo externo", pois são os seus métodos e processos que "criam e sustentam esse mundo". Flew percebeu que era uma visão idealista, que negava a existência de um mundo externo e que repetia as ideias dos empirio-criticistas do início do século XX, como Ernest Mach e Richard Avenarius. Não escapou também a Flew que a "nova sociologia do conhecimento", que gerou absurdos pós-modernistas, reproduzia as já antes criticadas posições filosóficas contra o racionalismo. Flew tinha a ironia de citar Vladimir Lenine, que dedicou muitas páginas a denunciar a versão original da "nova sociologia" como idealista e reaccionária.

Mais interessante é a premonição que Flew tem dos efeitos nefastos das posições pós-modernas na educação. No livro "Sociology, Equality and Education" (Macmillan, 1976), prevê que desprezar o conhecimento da realidade e privilegiar a "desconstrução" e os processos pedagógicos acabaria por secundarizar os conteúdos curriculares e prejudicar a transmissão de conhecimentos. Boas razões para ler, ou reler, Antony Flew.