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Luis Pedro Nunes

Volta ao mundo em 80 dicks

O ChatRoulette é a sensação do momento na net. Não fosse o ataque global dos onanistas.

Luís Pedro Nunes (www.expresso.pt)

Podia ser uma bela ideia. Aceitável e com potencialidades. O ChatRoulette é um sistema de videoconferência aleatório que permite que em segundos se vá saltitando por todo o mundo de webcam em webcam, de casa em casa, sala em sala, quarto em quarto, continente em continente, olhando para as caras dos interlocutores e interagindo com eles. Caso queira. Caso eles quisessem. Podia trocar experiências, perguntar onde estão, o que fazem, dizer olá. Ou doutriná-los para uma causa global. Ou até ser sujeito a uma lavagem cerebral e entrar para uma seita maléfica. Mas não. O que irá ver - e garanto-lhe que irá ver - são pilas. Muitas. De várias cores, tamanhos e formatos, mas decididamente entusiasmadas num pacto de onanismo planetário em videoconferência. É verdade. Sou do tempo em que este era um acto solitário. Privado. E secreto. E sujeito a culpa. Mas a grande novidade de 2010 em termos de tecnologia é esta capacidade que permite que tipos de todas as idades de forma aleatória o façam orgulhosamente para um público global.

Entrar no chatroullete não exige palavras-chave, nem identificação, nem responsabilidade, nem sanidade, nem idade (embora se 'exija' 16 anos e roupa vestida). Aliás trata-se de um 'jogo' criado por um adolescente russo e que em Dezembro tinha apenas 500 utilizadores e no mês passado atingiu o milhão de utilizadores/dia, com a atenção da CNN, ABC, Daily Show e perfis no "New York Times". O ChatRoulette passou em três meses a fenómeno global e Andrey Ternovskiy a mega-star 2.0, que será bilionário no momento que decidir vender.

Se duvida, entre na roleta do russo. Qualquer um que tenha um computador e uma webcam pode entrar sem dar qualquer dado pessoal. Mas terá que estar preparado. E perceber que basicamente esta plataforma de 'comunicação' não serve para trocar palavras: mas sim para ser 'nextado'. Cada vez que aparece alguém, surge também a tecla Next (de próximo). E o mais certo acontecer - a não ser que seja uma rapariga gira, pois mais de 70% são homens, 15% mulheres e os outros 15% têm problemas sérios - é que seja nextado antes dos três segundos. Ou, como alguém disse, é como tentar fazer speed dating com dezenas de milhar de pessoas em diversos pontos do mundo, umas vestidas, outras não.

Quando se entra há um primeiro impacto que perturba ao ver aquelas caras que olham intrigadas e em dois segundos te 'matam' de forma implacável... Ao fim de algum tempo começa-se a fazer o mesmo. Puto tipo sueco a rir. Next. Chavalo género indiano esgazeado no edredão. Next. Velho eslavo de camisa de alças. Next. Teens da suburbia americana a rir. Next. Depois a saturação dos masturbadores. E outro. Ao fim já são encarados como spam. Clica-se Next e já está. Nem se pensa no assunto.

Finalmente um chinês fica a olhar para mim com ar intrigado. Tira um cigarro e finge oferecer-me um. Acende, dá trago denso e envolto em fumo, olha-me concentrado, dobrando a cabeça como se buscasse um pormenor, como se estivesse a olhar um quadro pendurado. Estranho e perturbador. E nexta-me para a eternidade.

E voltam os fantoches a cantar, tipos bêbados de peruca, miúdas a mostrar maminhas e depois a nextar, velhos seminus. Velhos nus. Tipos a cozinhar. Tipos boa onda a querer falar de futebol. Muito insulto com o dedo médio. Paredes vazias. Cartazes a dizer: "É fim-de-semana não tens mais nada que fazer?". Muito papel a dizer "mostra-me as maminhas". Um freekshow global está a ser transmitido dos quartos numa pequena fracção de minuto.

Já chamam a esta a Geração N, de Next, de descartar implacável do outro em menos de três segundos, em busca de umas tits, a espreitar e a exibir a partir de um centro do Eu e de suspensão da moral que é o quarto, mas que chega a todo o planeta. Não vai correr bem, parece-me.

De resto, o anonimato antes não tinha cara. Agora tem pila. Não ganhámos nada com isso.

Andrey Ternovskiy - Andrey Ternovskiy de 17 anos é um adolescente de Moscovo que faz programação desde os 11. Começou o ChatRoulette só por brincadeira, tem sido ele próprio que tem multiplicado os servidores e os baseou em Frankfurt, não está nada satisfeito com o uso pornográfico do 'jogo' tanto mais que o quer manter 'simples e livre de publicidade'.

http://chatroullete.com 

Serviço que tenta mapear e localizar utilizadores: http://www.Chatroulettemap.com/

Primeira estrela Youtube/ChatRoulette: Merton que improvisa ao piano com estranhos, em

http://www.youtube.com/watch?v=MHrvpgA9XtI&feature=player_embedded

Texto publicado na edição da Única de 2 de Abril de 2010