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Luis Pedro Nunes

O capital erótico no local de trabalho

Coisa séria e boa para a carreira, garantem. Mais a das mulheres, imagine-se...

Luís Pedro Nunes (www.expresso.pt)

Todos temos em nós algum capital erótico. Mas ao fim do mês, feitas as contas, uns sacam as remunerações de um Mexia outros não garantem um rendimento mínimo.

A novidade é que se diz agora isso do capital erótico, é uma espécie de Novas Oportunidades (decentes) para se vingar na vida e um factor-chave para se ter (ou entrar) uma carreira profissional - quer se seja homem ou mulher, embora seja mais determinante para elas. E ainda bem que quem o afirma é uma socióloga da London School of Economics, Catherine Hakim, o que lhe dá aquela patine para poder ser discutido com uma certa elevação porque caso contrário isto soaria a frase de porco chauvinista. E - veja-se como as coisas são - até é uma daquelas teses de empowerment feminino na economia e sociedade. Continuemos a dançar no fio da navalha antes de levarmos com um sutiã a arder em cima.

Ao capital económico, social, humano e cultural quer a dra. Hakim juntar o erótico aos nossos bens pessoais. A Sociologia tem-se regido por teses patriarcais e sido dominada por um feminismo discriminatório que só dava à mulher a hipótese de ter ou cérebro ou aparência (nunca ambas), não se debruçando sobe a importância do capital erótico na actual sociedade hiperssexualizada.

Mas sempre vai dizendo que há homens como Sarkozy (com Carla) ou Obama (com Michelle) com grande capital erótico que transpiram feromonas e que não se confundem com serem belos. Oiço então clamores desse lado. O que é capital erótico? Pois é um 'factor para o sucesso' e que vai além da beleza e que inclui charme, vivacidade, auto-apresentação, sex-appeal e no caso das mulheres o 'trunfo' da fertilidade. E claro, este capital erótico, tal como no capital humano exige treino, desenvolvimento, aprendizagem e cuidados pessoais que vão além do talento inato. Assim o capital erótico não é a compensação de uma falha (tipo o complexo de loira burra) mas uma competência, um quesito para evoluir dado que pessoas com grande capital erótico são mais persuasivas e mais admiradas. Até porque não se fala aqui de um 'vestida para matar' mas da gestão de um certo magnetismo que convive com o dress code empresarial.

Ah, e saídas há poucos dias as notícias sobre este tema o que foi de loucura nos sites e revistas rosa fofoca-light! E o seu capital erótico como vai? Já testou o seu? Sabia que pode ser mais importante que um diploma? Um delírio. Há nesta 'liberação' capitalista uma serie de 'mas' que me fazem torcer o nariz. Esta noção economicista de um eroticismo aplicado à carreira reverte-se numa lei de oferta e da procura em que Catherine Hakim desenvolve toda a sua tese no pressuposto de que os homens têm uma necessidade de sexo muito maior do que as mulheres (fazendo uma pressão maior do lado da procura) sendo que estas não só 'necessitam menos' como se produzem e se cuidam mais (logo têm muito mais capital e regem a oferta). Assim o acréscimo de poder estaria do lado das mulheres, e muito mais teriam se aceitassem esta noção de capital erótico. Pessoalmente acho que conhecem de ginjeira este 'conceito sociológico' embora o possam negar.

Houve quem contestasse esta tese dado que não inclui a variável gay no local de trabalho e lêem a realidade como se fosse uma relação binária homem/mulher. A equação era simplista e simplória.

Mas basicamente - e lendo a coisa com atenção - tudo isto me cheira a conspiração, a maquinação neofeminista. Agora que as leis e políticas de assédio no local de trabalho já estão assimiladas e os homens domesticados chegou a hora de legitimar o capital erótico feminino no local de trabalho. Não é vaidade ou dondoquice nem se pode produzir qualquer 'terminologia masculina depreciativa' mas sim um asset positivo para a empresa. E rapaz, se te atreveres a mandar uma boca sexista apanhas um processo que ficas descapitalizado para o resto da vida.

Catherine Hakim publicou este estudo em Março na "European Sociological Review" e teve imediata repercussão mundial com artigos no "Financial Times" mas com larga projecção no Brasil ou no Japão. Embora Angelina Jolie seja a imagem mais usada para ilustrar os artigos, o casal Obama é o nome mais citado por Hakim nos diversos artigos que escreveu (nomeadamente na revista "Prospect"). O estudo - 'Erotic Capital', Catherine Hakim, LSE, 2010 http://esr.oxfordjournals.org/cgi/content/full/jcq014v1

Texto publicado na edição da Única de 17 de Abril de 2010