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Luis Pedro Nunes

Eliminar os telemóveis nos carros

Não é com tédio que se resolvem os problemas do mundo.

Luís Pedro Nunes (www.expresso.pt)

Um avião da Northwest Airlines ignorou os apelos do aeroporto de Minneapolis onde devia aterrar e seguiu durante mais 250 quilómetros em linha recta. Temendo que o aparelho tivesse sido tomado por terroristas, caças prepararam-se para levantar. Finalmente os pilotos responderam estremunhados e deram meia volta. Durante dias especulou-se se estariam ambos a dormir no cockpit. Finalmente na semana passada admitiram: estavam tão entretidos nos seus laptops que não ouviram as comunicações e o avião seguiu em piloto automático.

Os pilotos lá foram suspensos pelas autoridades aeronáuticas e ficámos todos descansados pois não havia nem terroristas nem peças com problemas estruturais, coisas que fazem cair aviões. Treta. A causa de muito acidente neste mundo é tédio. Não ter os sentidos apurados e adrenalina a bombar. O problema é que os dois homens - altamente especializados - estavam aborrecidos de morte de ir ali sentados sem nenhum botãozinho para carregar e nada para apalpar que as políticas antiassédio sexual dos americanos não estão pelos ajustes.

Tédio e pilotagem é uma má combinação. De alguma forma é similar quando vamos, num domingo à tarde, numa auto-estrada novinha e vazia num carro que garante dar 260 e por uma jura ao santo protector das multas lá seguimos ajuizadamente a ronronar à velocidade legal.

Longe vai o tempo em que antes de uma viagem o pai demoradamente revia as condições gerais da viatura e calçava as luvas de cabedal sem dedos depois de ter deixado o motor a trabalhar uns minutos e arrancávamos na EN. Conduzir exigia mestria, esforço e dedicação.

Hoje o acto de conduzir na auto-estrada em longas viagens foi destituído desse stress - claro que para compensar há a raiva de condutor matinal, aquela coisa de querer esventrar o tipo da frente, ou de ficar a espumar por casa do fulano que nos fechou na fila de uma hora, mas é diferente - isso é Ira-IC19 ou Esgana da Circunvalação. Mas a esta falta de adrenalina 'por ir conduzir' junta-se o 'mito' do 'automultitasksimo'. É verdade que tal como muitos já não falo ao telemóvel sem um auricular porque dá muito nas vistas à polícia e as multas estão caras mas, para entretenimento de viagem e em contrapartida, posso pôr o carro em cruise control a 120 e comer uma sandes de leitão e beber uma Coca-Cola Zero (meros 'actos inibidores da condução' no jargão policial), ver TV no 3G, mandar sms a dizer o que estou a fazer, fazer uploads de fotos no Facebook comigo a conduzir e a comer, e dar uma twittada para irem ver a foto no meu Facebook, e depois para fazer a digestão dos actos inibidores e ver o filme Velocidade Vertiginosa II na PSP, o que torna a condução muito menos aborrecida, ao contrário dos pilotos da Northwest que estavam circunscritos ao laptop sem net.

A questão dos sms durante a condução é um problema de difícil controlo pelas autoridades. A repressão é complexa, apenas na Grã-Bretanha é levada á sério - e as campanhas de sensibilização são praticamente inexistentes. Os especialistas em questões rodoviárias dizem que responder ou ler um sms equivale a tirar os olhos da estrada seis segundos. Seis segundos são uma eternidade.

É um fenómeno transgeracional. De repente o carro da frente passa inexplicavelmente de 110 para 90 na faixa central sem toque de travões e respectivo sinal de luz traseira (foi apenas o acelerador que deixou de ter 'gás"). E lá está o/a imbecil a responder a um sms. Ou seja, a olhar para o entrepernas e a dedilhar sem prestar peva à estrada.

A minha proposta, e que me parece de uma sensatez intocável, é a seguinte: quem decidir entregar o telemóvel antes de começar viagem tem direito a ir a 160 pois irá atento, focalizado, centrado com toda a sua atenção na estada. Quem não prescindir do aparelho terá que se ficar nos 110 sempre na faixa mais à direita. Parece-me que é um começo.

Repressão Há já um caso britânico de condenação a prisão efectiva a 21 meses numa prisão alta segurança por troca de sms durante uma viagem que acabou num acidente que provocou a morte de uma jovem na estrada. E provou-se que a distracção na condução foi provocada pelo toque de uma mensagem a chegar e não pela escrita de uma.

Texto e vídeo do NYT publicado esta semana

Texto publicado na edição do Expresso de 7 de Novembro de 2009