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Expresso

Trump é uma dádiva: sejamos optimistas!

Depois de ler tanta opinião catastrofista e tanta análise apocalíptica só resta um sentido: ser estupidamente optimista. Talvez o mundo não acabe e até arrepie caminho. Talvez a Europa se salve com Trump presidente. Porque não? Dirigimo-nos para a desunião e para o fim da Europa tal como a conhecemos. Sabíamo-lo (sabemos mesmo isso, não sabemos?), mas não o queríamos aceitar. E agora?

Não vamos todos morrer. Para já, pelo menos. Recapitulemos. É difícil resistir ao carisma de Obama. Voltar a vê-lo discursar num comício político - e não no habitual registo presidencial – é fascinante, dada a sua oratória de pregador na igreja evangelista. É uma beleza. Mas, ao fim de 8 anos de um presidente afro-americano, temos uma América com problemas raciais agravados. Ao fim de dois mandatos de um presidente Nobel da Paz vivemos numa Europa que atravessa um momento de desagregação em parte por causa do fluxo de refugiados causados por um imbróglio no qual Obama no Médio Oriente tem graves responsabilidades indiretas. Trump não está errado em tudo o que diz quando acusa a administração Democrata de ter “criado” o Daesh/ISIS. A saída do Iraque tal como foi feita – com data anunciada publicamente, criando uma sensação de falsa calma e permitindo nomeadamente que o governo xiita de Bagdad preparasse uma purga aos sunitas que acabaria por ser o catalisador para a criação do Daesh no interior do país – acabou por se repercutir na Europa. O fluxo de refugiados que desembarcou nas costas do Mediterrâneo teve influência nos resultados do Brexit, dando outra dimensão a um processo aparentemente imparável de nacionalismos egoístas e de europeus antieuropeístas. Com Hillary nada mudaria. O caminho estava traçado.

É verdade que há sempre a possibilidade real de uma América fechada e isolacionalista ajudar a essa desintegração. E porque não o contrário? Sim, de provocar uma reação de defesa por parte da Europa? Perante dois blocos fechados e ameaçadores como o os EUA de Trump e a Rússia de Putin, esta poderá ser a oportunidade de voltar a ser necessário uma Europa forte e industrializada.

Já vimos como as “frases” iniciadas com o “é óbvio que” falham cada vez mais. Como o “É evidente que...” faz cada vez menos sentido no discurso político quando se lê realidade no Dia Seguinte.

Parece-me por isso evidente que, perante um presidente norte-americano antiglobalização e um czar russo expansionista em termos territoriais, só resta à Europa unir-se e assim salvar-se. É óbvio. Trump pode assim ser a melhor coisa que aconteceu aos europeus. É evidente. Digo-o agora em prognóstico de fim de jogo e em momento de reorganização mental pós-choque. Mas a vida continua.

PS: O candidato Trump foi um maná para o humor. Por muito “presidencial” que se torne – e o mundo está a rezar por isso, acreditando piamente que aquele mãozinhas de dedinho em riste e cabecinha de lado a dizer “huuuuuge” vai de repente ter a “dignitas” de um líder do mundo livre – dará sempre material excelente. Isso garanto.