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Expresso

Henrique Raposo

Somos todos Andreas Lubitz

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Os incêndios são animais noctívagos. Naquela noite quente de 87, a oficina do tio Custódio começou a arder. Tintas, vernizes, gasolina, carros e bilhas de gás lá dentro, pavor cá fora. Os meus pais saíram a correr para ajudar com as mangueiras que tentavam serenar a chama crescente, eu fiquei a cuidar do meu irmão. A garagem era no prédio ao lado, mas o declive alpino da rua impedia que os prédios se tocassem. À partida, estava em segurança e assisti ao espetáculo com a cabeça entre as grades da varanda. Tinha sete ou oito anos e naquela noite ganhei consciência de mim mesmo e, não por acaso, cometi naquelas horas um pecado que ainda me envergonha: gostei de sentir o caos, gostei de ver o Paulo, filho do tio Custódio, a entrar nas chamas para resgatar uma bilha de gás prestes a rebentar, gostei da banda sonora que cruzava o som sincopado das labaredas, os estalidos da madeira a queimar, os gritos das mulheres, entre elas a minha mãe, e o choro do meu irmão esquecido no quarto.  

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