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Expresso

Henrique Raposo

'Sequesso'

A pátria adora conversar sobre professores. A pátria, porém, nunca fala sobre educação. Portugal ainda não arranjou coragem para lidar com este facto: os alunos acabam o secundário sem saber escrever. Parece que os professores vão fazer uma 'marcha da indignação'. Pois muito bem. Eu também vou fazer uma marcha indignada. Vou descer a avenida com a seguinte tarja: 'os alunos portugueses conseguem tirar cursos superiores sem saber escrever'.

A coisa mais básica - saber escrever - deixou de ser relevante na escola portuguesa. De quem é a culpa? Dos professores? Certo. Do Ministério? Certo. Mas os principais culpados são os próprios pais. Mães e pais vivem obcecados com o culto decadente da psicologia infantil. Não se pode repreender o "menino" porque isso é excesso de autoridade, diz o psicólogo. Portanto, o petiz pode ser mal-educado para o professor. Não se pode dizer que o "menino" escreve mal porque isso pode afectar a sua auto-estima. Ou seja, o rapazola pode ser burro, desde que seja feliz. O professor não pode marcar trabalhos de casa porque o "menino" deve ter tempo para brincar. Genial: o "menino" pode ser preguiçoso, desde que jogue na consola. Ora, este tal "menino" não passa de um mostrengo mimado que não respeita professores e colegas. Mais: este mostrengo nunca reconhece os seus próprios erros; na sua cabeça, 'sexo' será sempre 'sequesso'. Neste mundo Peter Pan os erros não existem e as coisas até mudam de nome. O "menino" não escreve mal; o "menino" faz, isso sim, escrita criativa. O "menino" não sabe escrever a palavra 'recensão', mas é um Eça em potência.

Caro leitor, se quer culpar alguém pelo estado lastimável da educação, então, só tem uma coisa a fazer: olhe-se ao espelho. E, já agora, desmarque a próxima consulta do "menino" no psicólogo.

Gosto mais de Sines do que do Tibete

O Quinto Império é uma doença. Lisboa é incapaz de governar Portugal, mas está sempre disposta a dar lições de moral à Humanidade. A energia nuclear já é uma realidade planetária, mas Lisboa recusa construir centrais nucleares; vamos ter a electricidade mais cara da Europa, mas vamos salvar - sozinhos - o ambiente através da energia eólica. É o Quinto Império (versão Quercus). Todos os países do mundo fazem negócios com a China ou com a Líbia. Mas os puros de Lisboa ficam incomodados quando a diplomacia portuguesa consegue (tal como conseguiu esta semana) um contrato milionário na Líbia para um consórcio português. Não temos onde cair mortos, mas temos a pretensão de liderar a onda mundial dos direitos humanos. É o Quinto Império (versão Ana Gomes).

Este desconforto com o negócio líbio faz lembrar a histeria em redor da última visita do Dalai Lama. Ninguém se calava: o Presidente e o primeiro-ministro tinham o dever de receber o homem. No meio do ruído, ninguém reparou que a secretária de Estado dos transportes estava na China a negociar um contrato gigantesco para o porto de Sines. Mas os quinto-imperialistas são mesmo assim: adoram a Humanidade e os Direitos Humanos, mas nunca sabem onde fica Sacavém ou Sines.

Henrique Raposo