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Henrique Raposo

O meu Alentejo

Henrique Raposo (www.expresso.pt)

Desde miúdo, e sem saber porquê, sinto uma atracção doentia pelos filmes de Michael Mann. Vi "Heat" com quinze anos, e fiquei enterrado na cadeira, como se tivesse levado um tiro metafísico. Há dias, ao rever o último filme de Mann, "Inimigos Públicos", comecei a procurar essa bala perdida que encaixei em 1995, ou seja, comecei a tentar perceber o porquê desta minha paixão por Mann. Desenrolei o novelo, e fui dar ao Alentejo dos meus pais, esse pequeno Sara que me calhou em sorte. É um problema quando nos pomos a fazer autopsicanálise.

Nos filmes de Mann, encontramos sempre uma irmandade contranatura entre ladrão e polícia. E esta irmandade acaba por ser mais profunda do que a própria lei. Em "Heat", o respeito de Al Pacino (polícia) por Robert De Niro (ladrão) simboliza essa fraternidade que está além da frieza da lei. Em "Inimigos Públicos", o polícia que mata Dillinger é - paradoxalmente - aquele que mais respeita o famoso bandido, e, no final, esse respeito revela-se de uma maneira que arranca lágrimas até ao mármore mais frio. Hoje, passados quinze anos sobre o tiro inicial, este universo de Mann parece-me ser uma metáfora estilizadíssima sobre essa coisa estranha que é o patriotismo. Ser-se patriota não é lutar por uma ideia em abstracto, é respeitar o vizinho do lado, é respirar aquela amizade cívica que está a montante do músculo frio da lei. Ora, estes filmes, que fascinariam qualquer um, fascinaram ainda mais um miúdo português. Porque esse miúdo não sabia o que era o patriotismo. Portugal não era (nem é) uma pátria.

A falta de civismo e o corporativismo dos portugueses resultam da ausência desta irmandade retratada por Mann. E por que razão somos assim? Na resposta, posso apenas falar por mim. Eu nasci nos anónimos subúrbios de Lisboa, isto é, nasci em terra de ninguém. Sim, terra de ninguém. É impossível sentir amor por aquele enorme estaleiro de obras que é a suburbia de Lisboa. Eu não posso amar o sítio onde nasci, porque esse sítio é um padrasto de betão. Agora vivo em Lisboa, mas não sou lisboeta. Mas então qual é a minha terra? Há dias, uma revista dedicada ao Alentejo ajudou-me a responder a esta pergunta. Ao folhear a "Pormenores", senti um daqueles balázios metafísicos. O Alentejo dos meus avós é a minha terra. Aquele silêncio é a minha banda sonora. É no Alentejo que me sinto em casa. É lá que fica a minha pátria, logo, é de lá que pode vir o meu civismo. No sítio onde nasci, tolero uma rua suja. No Alentejo, não tolero um papel no chão. É através do Alentejo que posso respeitar Portugal por inteiro.

E agora o meu caro leitor pergunta: "mas V. está com esta conversa porquê?". Eu explico. O meu patriotismo tem sido apenas racional. Ando sempre a escrever sobre as mudanças institucionais que são necessárias para a salvação da pátria. Mas a salvação da pátria depende da redescoberta do amor patriota, algo que está antes dos livros. E, caro leitor, deixe-me avisá-lo de que esta minha autopsicanálise é aplicável a todos os portugueses. É que nós andamos sempre a falar da necessidade de fazermos reformas, mas nunca as fazemos. E não as fazemos, porque não amamos o país. A força necessária para mudar um regime vem do amor pelo país que está a montante do regime. Por isso, antes de entrarmos na conversa do costume, sugiro que cada português redescubra o seu Alentejo.

Texto publicado na edição do Expresso de 10 de Abril de 2010