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Henrique Raposo

É o regime, estúpido!

Henrique Raposo (www.expresso.pt)

Por agora, não interessa saber se Armando Vara é, ou não, corrupto. Por agora, só interessa relembrar uma coisa: o percurso de Vara. Segundo reza a lenda, Vara era 'caixa' numa agência da CGD. Excelente. Este seria um óptimo ponto de partida para uma ascensão social marcada pelo estudo e pelo trabalho dentro do próprio banco. Porém, a ascensão de Vara, de bancário a banqueiro, parece dever-se sobretudo a critérios partidários.

O guterrista Armando Vara fez todo o percurso partidário: foi deputado, secretário de Estado e ministro. Tudo ia bem até que, em 2000, Jorge Sampaio 'demitiu' Vara do cargo de ministro da Juventude. Assim que saiu do governo, Vara entrou para um cargo de chefia na CGD (director coordenador na CGD). Ao longo da sua carreira partidária, Vara adquiriu competências de alta gestão bancária? Não sabemos. Mas sabemos de uma coisa: a CGD cumpriu, mais uma vez, o seu papel de doce regaço para os boys que já não cabem nos governos. E, atenção, o melhor estava ainda por vir: em 2005, quando um amigo de Vara chegou a primeiro-ministro, Vara foi colocado na administração da CGD. Como dizia João Duque, Vara tinha (e tem) uma qualidade imprescindível no negócio bancário: "tem o n.º de telefone do sr. eng.º José Sócrates memorizado no seu telemóvel e quando lhe telefona ele atende-o". Por outras palavras, Vara foi um político do Bloco Central, e, por isso, ficou acima dos critérios que se aplicam ao comum dos mortais.

Meus caros, o verdadeiro escândalo não advém do estatuto de arguido de Vara (com a nossa justiça, até Afonso Costa se arrisca a ser arguido). O verdadeiro escândalo é este: o governo de Sócrates não devia ter colocado Vara na administração da CGD, e o Banco de Portugal devia ter reagido a essa nomeação. Não interessa aqui a - hipotética - corrupção de Vara. O homem é inocente até prova em contrário, e quem tem o fardo da prova é o Ministério Público. O que interessa aqui é a 'corrupção institucional' disto tudo. O percurso de Vara revela que os dois partidos do poder (o PSD também tem 'Armandos Vara') podem fazer tudo o que quiserem dentro do sistema político e económico. O problema não é Armando Vara per se, mas sim todo o regime. A III República está montada de forma a legitimar a promiscuidade entre a política e os negócios. É o próprio regime que transforma uma coisa 'ilegítima' - essa promiscuidade - numa coisa 'legal'. E a raiz do mal está na existência de centenas de empresas públicas ou semipúblicas, encabeçadas pela faraónica CGD. Ao contrário do que diz a ortodoxia instalada, um Estado com empresas públicas não protege o bem comum. Um Estado com empresas públicas serve apenas os interesses de quem tem os cartões partidários certos (laranja ou rosa). No fundo, a corrupção é a outra face do 'socialismo' e da 'social-democracia'.

A promiscuidade entre partidos e empresas públicas é o nó górdio da corrupção que marca a nossa vida política. Se queremos diminuir a intensidade da corrupção, então, temos de privatizar essas empresas, as esquinas onde os corruptos gostam de cochichar. E, como se vê, estas privatizações não devem obedecer a critérios económicos, mas sim a critérios de ética política: sem estas empresas no rol do Estado, os senhores dos partidos ficam sem os lugares onde é possível meter a política e os negócios na mesma cama.

Henrique Raposo

Texto publicado na edição do Expresso de 7 de Novembro de 2009