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Expresso

Henrique Raposo

Capitalismo chico-esperto

Facto: a Galp tem o monopólio da refinação em Portugal. Facto: não existe concorrência entre operadores. Facto: os espanhóis não conseguem entrar no mercado português. Facto: a Autoridade para a Concorrência é tão míope como o Mr. Magoo. Facto: como salientou Nicolau Santos, o preço do gasóleo subiu 100% em Portugal contra 52% na UE-15. Facto: as receitas de refinação e distribuição da Galp crescem a um ritmo exorbitante. Por que razão a elite política não fala destes factos?

Os partidos políticos portugueses criaram uma economia centrada em empresas estatais, semiestatais ou apadrinhadas pelo Estado. Galp, EDP, Portugal Telecom, CTT, CP, eis algumas 'empresas' (com muitas aspas) que têm um monopólio garantido - directa ou indirectamente - pelo Estado. Caro leitor, sabe qual é a função da famosa "golden share" que o Estado detém na Galp? Eu ajudo: a "golden share" serve para garantir um monopólio que desvirtua o mercado; um monopólio que beneficia os accionistas mas que prejudica o resto da sociedade. E os nossos queridos líderes justificam sempre da mesma maneira a existência da "golden share": "é necessário", dizem eles, "manter os centros de decisão em Portugal". Caro leitor, faça uma coisa quando voltar a ouvir esta frase: saque da pistola. Este nacionalismo económico não defende o interesse nacional; só defende os interesses dos accionistas destas 'empresas' (não esquecer as aspas).

Esta perversão da economia em favor dos 'interesses' é a consequência do modelo político e social que Portugal escolheu. Ou seja, o chamado Estado Social também é isto: a colonização do Estado pelos partidos. Os partidos portugueses (todos, sem excepção) defendem o Estado Social e detestam a concorrência. Porquê? Ora, a concorrência significa menos poder do Estado - controlado pelos partidos - sobre a sociedade. É fácil controlar uma empresa que detém um monopólio. É impossível controlar um mercado com várias empresas em competição. Por norma, a concorrência é vista apenas como uma variável económica. Mas a concorrência também é um valor político e até moral: representa a libertação da sociedade em relação ao poder. O meu caro leitor gosta do Estado Social? Pois muito bem, aqui tem o efeito da sua preferência: uma sociedade colonizada pelos partidos.

Em Portugal, o pior do capitalismo e o pior do socialismo juntaram-se para formar uma estranha noite semicapitalista e semissocialista; uma noite onde todos os gatos são pardos, e onde os gatinhos dos partidos podem ser ministros num dia e gestores de uma 'empresa' monopolista no dia seguinte. Lá fora, esta promiscuidade entre partidos e empresas dá pelo nome de "crony capitalism". Eu gosto de traduzir para 'capitalismo chico-esperto'.

E o Nuclear?

Está na altura de Portugal entrar na era nuclear. O mundo inteiro vê na tecnologia nuclear uma fonte de energia limpa e barata. Portugal falhou a era do carvão (século XIX) e a era do petróleo (século XX). Portugal não pode falhar a era que se avizinha: a era das energias renováveis (eólica, geotérmica, solar, etc.) e, claro, da energia nuclear. Os reactores são compatíveis com as ventoinhas da EDP.

Henrique Raposo