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Henrique Raposo

As duas ditaduras

Henrique Raposo (www.expresso.pt)

O PCP é dado ao humorismo. O "Avante!", por exemplo, é imbatível no nonsense. Esta semana, Saramago quis reentrar no espírito 'montypythiano' do PCP, e, por isso, lançou a piadola mais velha do reportório comunista: "a Bíblia é um manual de maus costumes". A malta lá vai rindo com este marxismo gracejante. O problema é que, no meio da risada, já ninguém se lembra da altura em que o PCP não era um cartoon inofensivo, mas sim uma guilhotina. Finda a galhofa, convém relembrar a época em que o PCP conseguiu impor uma ditadura cultural em Portugal. Uma coisa para poucas risadas.

Em "Liberdade" ("O Independente"), podemos ler algo que Victor Cunha Rego escreveu em 1958: dentro do meio intelectual, "o grupo comunista exibe um nítido desejo de que a era do dr. Salazar não atinja o seu termo". Cunha Rego dava assim a entender que o PCP necessitava de Salazar, e a seguir explicava porquê. Nessa explicação, Cunha Rego foi profético em relação às ambições do PCP: "da ditadura da extrema-direita à ditadura da extrema-esquerda vai o salto de uma cobra". Cunha Rego tinha razão. Durante o PREC, Cunhal tentou implementar uma ditadura comunista. Esse projecto foi derrotado. Mas a derrota da ditadura política de Cunhal não pode desviar a nossa atenção da ditadura cultural que o PCP impôs ao meio intelectual português durante décadas. Afinal de contas, o PCP também precisava de Salazar para chantagear os intelectuais: "se não estão connosco, estão com Salazar".

Num ensaio republicado em "Portugal" (Alêtheia), Vasco Pulido Valente revelou a forma como a revista "O Tempo e o Modo" desarmadilhou essa chantagem do PCP. Bénard e Alçada protegeram os intelectuais que viviam encurralados entre as duas ditaduras, a ditadura política de Salazar e a ditadura intelectual de Cunhal. Nessa livre e frágil terra de ninguém, situada entre duas paredes autoritárias, a "O Tempo e o Modo" deu asas a figuras como Agustina, Sophia, Sena, Lourenço, etc., uma geração de intelectuais que "rejeitava simultaneamente a ditadura, o velho republicanismo jacobino e o PC". Por outras palavras, estes intelectuais recusaram submeter-se à chantagem do PCP: como defensores da liberdade, sabiam que Cunhal era tão autoritário como Salazar.

Coppola no Rio

Seu Lula, fique sabendo que o Brasil anda meio medieval. O bandido que mandou abater o helicóptero é idêntico aos cavaleiros medievais, aqueles que tinham sub-soberanias dentro dos reinos. Na era das trevas, o rei era apenas o primus inter pares. Na prisão, bebendo gim, e com guardas fazendo a sua pedicure, esse cavaleiro 'favelado' é quase tão soberano como você, Presidente Lula. A favela é a soberania dele. Quem mandou meter um helicóptero no espaço aéreo do moço? Aqui na Europa, seu Lula, os reis só conseguiram controlar essas soberanias mafiosas pela via da porrada. Se o cavaleiro erguia uma muralha, o rei começava logo a brincar de Guilherme Tell com canhões fumegantes e catapultas feéricas. Você tem de fazer o mesmo, Presidente. Experimente jogar napalm na favela, e mande o Coppola filmar o acto. Quando o negócio é beleza cinematográfica, olimpíada com napalm no cenário é bem melhor do que o Vietnã, seu Lula.

Henrique Raposo

Texto publicado na edição do Expresso de 24 de Outubro de 2009