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Henrique Raposo

A pedra polaca

Henrique Raposo (www. expresso.pt)

Numa época gloriosa e já longínqua, eu tive a sorte de trabalhar com um regimento florido de diplomatas polacas. Uma delas, a doutora Wolanska, até era assessora do recém-falecido Lech Kaczynski. Durante esses longos meses, aprendi a respeitar a Polónia e a Europa de Leste. No contacto directo com aquela camaradagem que mistura carne eslava com doçura mariana, aprendi a olhar para o incompreendido Kaczynski sem a arrogância da 'velha Europa'. Melhor: aprendi a amar a Polónia. E explico porquê: a mera existência da Polónia prova a falsidade das grandes narrativas progressistas que andam por aí a apascentar a opinião pública situada a oeste da linha Oder-Neisse.

A Polónia enfrentou uma invasão fascista (1939-45) e uma colonização comunista (1945-1989). Sim, a Polónia foi uma colónia dos amiguinhos moscovitas do PCP. Isto quer dizer que, na mente polaca, o comunismo é um facínora tão perigoso como o fascismo. E este é, claro, o primeiro embate narrativo entre a Polónia e a 'velha Europa'. Em Berlim, Paris ou Lisboa, ainda fica mal dizer que o comunismo foi tão maléfico como o fascismo. Mas, em Varsóvia, essa equivalência moral é uma evidência histórica. Os polacos sabem que o comunismo partilhou um quarto com o fascismo naquela pensão caótica que foi o século XX.

Como o colonialismo comunista só acabou em 1989, os polacos ainda são muito ciosos da sua soberania. Donde o segundo choque frontal entre Varsóvia e o europeísmo. Para um belga, 'soberania' é sinónimo de 'guerra'. Mas, para um polaco, 'soberania' é sinónimo de 'libertação' do jugo comunista. Em Berlim ou em Lisboa, o patriotismo é visto como uma espécie de autoritarismo encoberto. Em Varsóvia, o patriotismo é a antecâmara da liberdade. Depois, enquanto a 'velha Europa' desenvolveu um ateísmo anticatólico, a Polónia permaneceu bravamente católica. Eis, portanto, a terceira linha de combate entre Varsóvia e o politicamente correcto. Em Lisboa ou Paris, a malta cool acha que a Igreja é uma ameaça à liberdade. Ao invés, a coolness polaca vê na Igreja uma fonte de liberdade. É natural: durante a ditadura comunista, os católicos expressaram a sua liberdade através da fé católica.

O malogrado Lech Kaczynski representava assim um povo patriota, católico e anticomunista, a tríade que transforma a Polónia numa pedra no sapato do império 'bruxelense'. Que Kaczynski descanse em paz, e que o altíssimo dê vida longa à terra das doce Wolanskas.

Manent

Em "A Razão das Nações" (Edições 70), Pierre Manent, um herdeiro de Montesquieu, afirma que o europeísmo, ao criar a falácia da democracia pós-nacional e antiestado, está a destruir as bases da democracia constitucional. Porque a democracia é uma flor que só consegue sobreviver no interior de uma determinada estufa: o Estado soberano regido pelo constitucionalismo liberal. Este livro é, portanto, fundamental para compreendermos a Polónia. Mais: este livro é essencial para compreendermos os EUA, a Índia, o Brasil ou Israel. Ou seja, a 'lente' de Manent é essencial para compreendermos todas as democracias situadas no exterior da 'velha Europa'. Montesquieu está em Nova Deli, e não em Bruxelas.

Texto publicado na edição do Expresso de 17 de Abril de 2010