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Civilização e trepadeiras

Conheci a Glória há dias no festival literário de Macau (Rota das Letras). Emigrou do México para a zona de Cantão onde trabalha como gestora e, volta e meia, visita Macau e Hong Kong para renovar a sua vida cultural. Encontrar uma mexicana na China é um choque térmico. O fervor da latina é a negação da frieza polida da chinesa. Do recorte do corpo até aos gestos, passando pela simpatia, a mexicana está para a chinesa como o caos do jazz está para a geometria de Bach. Como tinha visto o filme “Sicário” no avião, a nossa conversa não saiu da anarquia que é o quotidiano mexicano. “Sicário” é duríssimo, retrata um país sem lei, um país onde as verdadeiras fronteiras administrativas são as fronteiras entre os diferentes cartéis, um país onde corpos decepados aparecem nas ruas com toda a naturalidade como se fossem meros pombos decepados pela roda do carro. O horror é o normal; o estado da natureza é um penedo que esmaga as sementes do Estado de direito. Perguntei-lhe se o filme era um retrato preciso ou uma caricatura ianque. “É mesmo assim”, disparou. “Amanhã não sei se a minha mãe me vai ligar a dizer que a minha irmã foi roubada, raptada, violada”. Percebi de imediato porque é que ela vivia na China: apesar das tais diferenças térmicas, ali sente-se segura.

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