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Guerra no Drina

O anelar da minha mão direita não fecha por completo, não dobra como os outros dedos, faz um arco sem ângulos retos. É uma lesão antiga, herança de um jogo de voleibol que resumiu “A Ponte Sobre o Drina”, de Ivo Andric. Mesmo num jogo pachorrento e distante do contacto físico como o voleibol, o caos balcânico explodiu. No meio da confusão, acabei por dobrar o dedo como se fosse argila. A fúria do voleibol foi o episódio mais pesado daqueles meses em que partilhei casa e trabalho com pessoas da ex-Jugoslávia, mas poderia encher todas as páginas do Expresso com cenas semelhantes. A tensão entre sérvios, kosovares, croatas, bósnios-sérvios e bósnios-muçulmanos era palpável. E estamos a falar de gente que tinha responsabilidades. Não, a guerra ainda não tinha acabado naquelas cabeças, era um assunto por resolver. Era e continua a ser. Porquê? Leiam Andric e depois percebam um ponto levantado por Carlos Branco, general português com experiência nos Balcãs: as sociedades balcânicas não fizeram a sua catarse, não fizeram a expiação dos seus próprios pecados devido à intervenção externa do TPI. Julgar crimes de guerra devia ter sido um processo moral interno, não uma intromissão moralista externa. Além disso, a narrativa do TPI criou a ideia de que a agressão foi um impulso exclusivo dos sérvios. Não é verdade. Os muçulmanos e os croatas também cometeram crimes de guerra.

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