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Expresso

Rust Belt

Chamemos-lhe Joaquim. Era um dos meus heróis lá do bairro, o fiel representante do orgulho operário – não no sentido comunista mas no sentido do colarinho azul que se faz à vida. Nascido em 1969, começou a trabalhar aos catorze como eletricista e depois entrou na gigantesca Lever (Sacavém). Naquele tempo era assim: bastava descer uma rua para encontrarmos trabalho ao longo da margem norte do Tejo. Toda a minha gente trabalhou ali.

Ao longo de décadas, construímos um pouco de tudo naquela cintura industrial entre Moscavide e Vila Franca, desde carros até telefones, passando pelos móveis da Olaio e pelo sacrossanto Skip da Lever. Se não tivéssemos medo de sujar as mãos, sabíamos que ali havia sempre trabalho, um lugar digno na sociedade e até ascensão social.

Lembro-me como se fosse hoje do dia em que o Joaquim chegou à nossa empoeirada rua com o seu primeiro carro, um Ford Escort vermelho do início dos anos 70. A par da restante canalha do bairro, idolatrei aquele chaço que simbolizava um modo de vida simples e intuitivo. O Joaquim não queria estudar ou ser empreendedor, só queria trabalhar, namorar, ir aos jogos do Olivais e Moscavide, do Sacavenense, do Benfas, casar, ter filhos. Uma vida normal.

O problema é que esta vida normal acabou. Joaquim foi um dos operários que fechou em lágrimas a Lever há três anos. Em 1988, eram centenas, talvez seiscentos operários a fazer detergentes, champôs, pastas de dentes. Em 2011, eram umas dezenas, talvez sessenta, mas tinham o triplo ou quadruplo da produtividade devido às melhorias tecnológicas. Para alívio de todos, Joaquim foi colocado noutra fábrica do grupo desta margem norte (Santa Iria), mas continua preocupado. Não, ele não critica a Jerónimo Martins. Pelo contrário, admira a família Soares dos Santos e percebe a lógica da automatização, mas obviamente não deixa de estar preocupado. “Pelo andar da carruagem, onde é que a malta vai trabalhar?” é a sua pergunta. Se me permitem, esta começa a ser a pergunta-chave do nosso tempo.

O dilema de Sacavém ou Santa Iria de Azoia é o dilema de todas as pequenas cidades ou subúrbios de França, EUA ou Reino Unido. A tecnologia, por um lado, e a deslocalização, por outro, estão a criar um vazio na vida das pessoas, sobretudo dos homens como o Joaquim. E estamos a falar do grupo demográfico que é o coração de todas as nações, homens simples que começam a trabalhar cedo num emprego normal que possibilita uma família normal. Ora, este vazio está a levar-nos para um cenário macabro. Angus Deaton, Nobel da economia, descobriu que os homens brancos de quarenta e cinquenta anos dos EUA compõem o único grupo demográfico do Ocidente cuja mortalidade está a subir. Sem acesso à velha narrativa que girava em torno das Levers e dos Fords vermelhos, os Joaquins do coração americano então a encontrar o seu escape no suicídio ou na cirrose, que é um suicídio em câmara lenta. E, antes de se matarem, votam nos Trumps, canalizando a raiva para a política. Em França, o cenário não é diferente com Le Pen, que, não por acaso, tem o apoio do velho operariado do PCF. O Ford escarlate é cada vez mais um sonho impossível e o sabor a 1914 que vamos sentindo no palato nasce precisamente neste sonho interrompido.

PS: publiquei esta crónica no Expresso (em papel) de 31 de dezembro de 2015. Chamava-se "O Ford Vermelho". Só lhe mudei o título para "Rust Belt", porque me parece que resume aquilo que se está a passar. É caso para dizer que nem sempre é bom ter razão.