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Expresso

A velhinha do Multibanco

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No Multibanco do supermercado, uma velhinha está há vários minutos a tentar tirar dinheiro. Atrás dela forma-se enorme e desesperada fila. Parecemos dez Ferraris excitados atrás da autocaravana numa apertada estrada de província. Confesso que não a ajudo por piedade, mas porque estou com pressa. Seja como for, chego-me à frente e apercebo-me de que ela está ausente, como na música do Variações. Os seus olhos estão abertos, estão a ver no sentido mecânico, mas a sua cabeça não está a captar as imagens, alguma divindade macabra cortou a ligação entre os seus olhos e o seu cérebro. Está parada, bloqueada, como se tivessem carregado no botão da pausa. Ajudo-a, carregando em duas teclas, mas, entretanto, chega o marido. Não, não me quer insultar ou bater. Não, não está a pensar que eu estou a surripiar a velhinha indefesa. É o exato oposto: ele ralha com ela, Caramba pá, outra vez! Eu já te disse que não podes vir aqui sozinha! Ó amigo, desculpe lá! Como se vê, a reação do senhor é agressiva, dá um raspanete violento e visceral à mulher, o seu tom de voz tem a viscosidade da raiva, mas olha para mim com ar de súplica, como se quisesse encontrar um eco do seu sofrimento.

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