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Expresso

Rio e o politólogo humilde

É sabido que o ex-presidente da câmara do Porto é um objeto político difícil de classificar: afirma-se mais ao centro do que os anteriores líderes e quer devolver o PSD à sua matriz personalista. Contudo, garante que faria “igual ou pior” do que Maria Luís Albuquerque na frente orçamental.

O “politólogo humilde”, para utilizar a expressão curiosa de Santana Lopes no discurso de derrota, não tem grande dificuldade em identificar os desafios que Rui Rio enfrentará. Afinal, eles não são diferentes dos que enfrentaram outros líderes de partidos de poder na oposição: promover a unidade interna; renovar os protagonistas e alterar o posicionamento estratégico do partido, sem colocar demasiadamente em causa o legado dos líderes anteriores. Ou seja, encontrar um equilíbrio entre mudança e continuidade.

Sobre tudo isto, Rui Rio foi dando alguns sinais. Se levarmos a sério a frase proferida num dos debates, a propósito de Miguel Relvas – “deixe-me ganhar que vai ver como as coisas são” –, porventura, Rio irá mais longe na renovação e, para já, terá menos preocupações com a unidade interna. Com um grupo parlamentar que lhe é adverso, terá aqui um importante foco de conflito.

O “politólogo humilde” também sabe que, em campanhas internas, é sempre avisado não falar demasiado e não assumir muitos compromissos. Rio, que partia em vantagem para esta eleição, teve o bom senso de pouco dizer e adiar a sua afirmação programática. Se bem que tenha cenarizado excessivamente sobre o que fará em caso de derrota nas legislativas, sabemos pouco sobre o que esperar do novo presidente do PSD em termos programáticos.

Em todo o caso, é sabido que o ex-presidente da câmara do Porto é um objeto político difícil de classificar: afirma-se mais ao centro do que os anteriores líderes e quer devolver o PSD à sua matriz personalista. Contudo, garante que faria “igual ou pior” do que Maria Luís Albuquerque na frente orçamental. Ao mesmo tempo que teve sempre posições liberais em matérias de costumes, tem posições excêntricas sobre as instituições do regime, os sistemas de justiça e político.

O “politólogo humilde” tem, por isso, dificuldade em categorizar Rio e antecipar muito do que fará enquanto líder do PSD. Com imagem austera e moralmente probo, não hesita em defender posições impopulares (veja-se o que afirmou em campanha sobre a ação do Ministério Público); homem de partido há décadas, questionou sempre as lógicas de formação de poder interno (e, no passado, quando foi secretário-geral, agiu em conformidade). Capaz de marcar a agenda, está longe de ser um comunicador formatado para os novos media e não se move pela vontade de agradar aos jornalistas. Rui Rio é, como tal, uma incógnita.

Há, contudo, uma dificuldade que Rui Rio enfrentará, de certeza, nos próximos tempos. Um pouco por todas as democracias liberais, o espaço político para a direita centrista e moderada tem sofrido um processo de erosão. Também em Portugal, durante os anos da troika, cresceu uma agenda populista e radical, que foi colonizando o PSD. Com a saída de Passos Coelho, o sentimento de orfandade crescerá em largos setores e a nossa direita inorgânica – muito influente no espaço público e capaz de marcar os debates – não perderá nenhuma oportunidade para questionar o líder do PSD, pressionando-o para que cavalgue o caso mediático da semana. Resistir emocional e politicamente a esta pressão, num momento em que a economia e as finanças públicas favorecem o Governo, é o principal desafio de Rui Rio.