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Javier Martin

“A Catalunha e nós”. Correspondente do “El País” responde a artigo de José Soeiro

SUSANA VERA / REUTERS

Uma coisa é ser de esquerda ou de direita, outra é ser um indocumentado. É o caso de José Soeiro no artigo que publicou na passada sexta-feira no site do Expresso.

“ A rejeição e a anulação do estatuto de autonomia da Catalunha, aprovado pelo povo catalão e negociado com Madrid em 2006, foi um poderoso carburante para o sentimento nacionalista ”

Falso. O Estatuto de Autonomia está vigente, não foi anulado. O Tribunal Constitucional anulou alguns artigos que iam contra a Constituição, como acontece em Portugal ou em qualquer país com uma Constituição. Ao contrário, foi a maioria do Parlamento de Catalunha que nos dias 6 e 8 de setembro aprovou leis contra o seu próprio Estatuto.

“ Até ver, o seu gesto autoritário [do governo do PP], que na prática impõe um estado de exceção e suspende direitos fundamentais como a liberdade de expressão e o direito de reunião na Catalunha, só pode atiçar ainda mais o incêndio.”

Pergunto, está o senhor Soeiro em Barcelona ou lê as notícias na internet? Tenho todas as dúvidas. Se o senhor Soeiro for a Barcelona poderá acampar e dormir nos jardins públicos, frente ao Ministério das Finanças ou dos Tribunais de Justiça; também poderá ler jornais independentistas, ouvir rádios independentistas e ver televisões independentistas; e também poderá levar cartazes para dizer qualquer borrada, pode também fazer chichi dentro dos carros da Guardia Civil, como fizeram os manifestantes, e nada aconteceu. Nem uma detenção.

“... o governo de Madrid lançou uma vaga de repressão política, com a intimidação de altos funcionários catalães (acusados dos crimes de desobediência, prevaricação e desvio de fundos, por estarem a organizar um referendo “não autorizado”), a interdição da atividade pública de líderes eleitos e, agora, a apreensão de mais de 10 milhões de boletins de voto, o confisco das urnas e a prisão de altos dirigentes.”

Falso, não foi o Governo, foi um juiz (catalão, aliás).

Para finalizar, o senhor Soeiro cita um artigo da Constituição portuguesa sobre a autodeterminação dos povos, etc.. Muito bem, na Constituição espanhola não está (não quisemos) mas a autonomia dos povos de Espanha (Galiza, Andaluzia, Castilha, país Basco, Navarra, Canárias, Valência e, evidentemente, na Catalunha), é muito maior que as de Açores ou Madeira, e em alguns casos, maior do que em certos estados federais dos Estados Unidos.

Não é um tema de votar, como bem sabe o senhor Soeiro. Votam muito em Cuba e em Venezuela. O voto não é garante de democracia e a votação do referendo do dia 1 não é uma votação nem democrática, nem livre, nem legal. Se você quiser ‘saltar’ a lei hoje, eu vou querer ‘saltar’ outra lei amanhã.

É uma pena que num debate tão importante pese mais a ideologia que o conhecimento, como é o caso flagrante do senhor Soeiro.