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Opinião

Um minuto de silêncio

Para não esquecer de acudir, de pedir perdão, de pedir ação, de prevenir, de corrigir.

É preciso ler. Uma família de nove morre na estrada ao fugir de casa, a casa que não arde, a casa onde a mesa é encontrada posta e o jantar pronto. É preciso reler. Os que vão salvar as máquinas, os que vão buscar o dinheiro, os de lá, os de fora que vão de fim de semana, os que vão inaugurar a casa remodelada, a criança que tem os pais em lua de mel, o bombeiro num desastre a caminho do fogo. É preciso saber. Os que ficam e morrem em casa, os que saem e morrem na estrada, os casais que morrem juntos, a mulher que morre no carro mas não o homem porque mergulha no tanque. É preciso ver. Os carros que capotam, que chocam, que ficam entalados numa árvore, os corpos da avó com a neta ao colo, da mulher enfiada sob a autocaravana, da criança acoitada debaixo do tablier, dos que conseguem sair do carro mas não do fumo. É preciso não esquecer, porque um número não é um número, nem 64, nem sequer 65, contando com a mulher atropelada na fuga da casa que ficou intacta. Não é escatologia nem morbidez, é uma forma de continuar acordado, de lembrar para não esquecer, de não esquecer que enquanto não se encontrar as causas, as falhas, os responsáveis não merecemos a memória dos que morreram. Para não esquecer de acudir, de pedir perdão, de pedir ação, de prevenir, de corrigir.


É também por isso que o Expresso publica hoje a lista oficial dos 64, que permanecia incompleta e desconhecida. Para que a Comissão Independente não se perca no exercício académico, para que seja mais importante o Estado salvar do que os presumíveis responsáveis salvarem os seus empregos. Para que se saiba que entidades poderão ser acusadas pelo Ministério Público de homicídio por negligência, se for esse o destino das investigações. Para que as investigações apurem em vez de denegar. Para recuperar a confiança nas entidades públicas. Para que os políticos não façam política de evasão mas políticas públicas urgentes, ainda que de efeitos lentos. Para que as ajudas cheguem. Para que a mesquinhez seja exposta como mesquinhez, para que o controlo da informação não prevaleça e o descontrolo da informação não confunda.


Para encaminhar as especulações para um lugar de sossego. Para descobrirmos, afinal, que as vítimas mortais que não o tenham sido por causas diretas, queimaduras ou asfixia não estão na contagem da tragédia. Como uma senhora que, fugindo de casa, foi atropelada por um carro que se pôs em fuga. Um nome que de outra forma não constaria nas missas ou nas homenagens.


E por homenagem, sim, por homenagem às vítimas e às famílias, na solenidade absoluta do que não cabe num número mas existe num nome e na história, a de cada um e a dos seus. Pela dignidade das exéquias, pelo respeito pelos epitáfios, pelo silêncios nos réquiens, pela promessa de que a tragédia não será esquecida nem a sua réplica consentida, pela homenagem aos que morreram e aos que os perderam, pela relembrança em mais do que na leitura de um texto, mesmo que seja um texto como este, este que demora um minuto a ler, este que é um minuto de silêncio.