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Martim Silva

Martim Silva

Diretor-Executivo

Lei da rolha? Tenham juízo!

Luís Barra

Em plena época de combate aos fogos, a Autoridade Nacional de Proteção Civil decide impedir declarações dos comandantes de bombeiros. Era exatamente isso que o país precisava. A partir de agora vai correr tudo lindamente...

O drama dos incêndios florestais é uma novela sem fim em Portugal.

Este ano, ainda o verão vai a meio e o panorama não melhorou, muito pelo contrário. Prometem-se reformas florestais e no ordenamento do território que não chegam ou chegam aos soluços;

Já tivemos o maior incêndio florestal de sempre, com a maior área ardida e com o maior número de vítimas mortais da nossa história;

A estrutura de comando, com mudanças recentes, revelou-se confusa, incapaz e merecedora de críticas;

O sistema de comunicações comprado a peso de ouro é uma geringonça pouco mais que inútil;

E, no topo da pirâmide, temos uma ministra que, ou não aparece, ou quando aparece não transmite a necessária confiança.

Como se tudo isto não bastasse, agora a Autoridade Nacional de Protecção Civil decidiu impor uma verdadeira lei da rolha aos comandantes de bombeiros. A partir deste momento, a informação prestada aos jornalistas passa a ser centralizada em Carnaxide, sede da Protecção Civil.

As perguntas impõem-se: mas foram declarações dos comandantes que prejudicaram o combate aos fogos? Foram essas declarações que fizeram com que o SIRESP não funcionasse de forma conveniente? Ou que ficasse demonstrado que as alterações de comando na Protecção Civil foram um recuo evidente? O que ganhamos com isto?

A lei da rolha é um disparate tremendo. Não é o que de mais grave se passou nesta época de combate aos fogos, longe disso. Mas é um sinal sintomático de como as cúpulas de poder olham para o problema: se não se falar nele, não existe. Se ninguém contar, então é porque está tudo bem. Assobiar para o lado, atirar os problemas para debaixo do tapete, empurrar com a barriga (não deve ser por acaso que temos tantas expressões para dizer mais ou menos o mesmo...)

Esta ideia tem um problemazinho. Além de ser um disparate tremendo, simplesmente não vai resultar. Não vai.

Submetida ela própria a uma verdadeira lei da rolha nas últimas semanas, a ministra Constança Urbano de Sousa tem aqui uma oportunidade de ouro. Tem de largar o silêncio e vir a público garantir (se o conseguir fazer) que o Governo nada tem que ver com esta decisão. Que não sabia dela e que discorda totalmente. E depois acrescentar aos portugueses que já deu ordens para que a diretiva seja imediatamente revogada.

Constança sempre pode assim aproveitar uma boa oportunidade para... não ficar calada.