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O inimigo está entre nós

Alberto Frias

3 de maio, dia da Liberdade de Expressão, foi dia de ver Putins e Trumps, Maduros e dos Santos, Kim Jong-uns e Xí Jìnpíngs e muitos rostos desconhecidos, façanhudos e ferozes a partir bicos de lápis, esmagar microfones ou quebrar câmaras. Terroristas barbudos, militares escanhoados, gordos bem vestidos, tudo o que representa o poder apareceu a transformar jornalistas em alvos – o limite foi a imaginação.

Nada contra. Mas é pouco. Com eles apenas se perdem as que caem no chão, mas convém não fixar o olhar no dedo e ignorar os cenários que ele aponta, aqueles de que fazemos parte.

No mundo ocidental, o principal ataque à liberdade de expressão não vem de fora. O inimigo está cá dentro. Como o caruncho que reduz a mobília a serradura ou a lagarta que corrói a maçã, é dentro da Comunicação Social que se está a destruir o jornalismo. É cá dentro que se criam condições para que a liberdade de expressão seja despicienda e, até, que o jornalismo se torne dispensável (como se ele fosse possível sem liberdade).

Quando a lesão de Jonas é questão central (muito mais que a vida de Nuno Brederode Santos); quando as sete melhores praias para o fim de semana são capas e destaques de primeiras páginas; numa época em que o body building enche edições e as dietas dão origem a pormenorizados trabalhos (chegou a hora de tirar os biquínis e calções dos armários), para que serve a liberdade de expressão?

Muito, mesmo muito do que hoje se escreve seria tranquilamente aceite pela mais zelosa ditadura. O mundo que conta está fora da Comunicação Social – com muito raras exceções.

Hoje não se emitem debates sobre conceitos políticos, não há verdadeiras discussões; ninguém acredita que fosse possível refazer um frente-a-frente como o que opôs José Saramago a Tolentino Mendonça ou ao padre Carreira das Neves (este recentemente recordado a propósito da morte do teólogo franciscano).

Sem meios, vários jornais, televisões e rádios seguem os mesmos assuntos, cobrem os mesmos acontecimentos, disputam as agendas oficiais e vão atrás dos comunicados e temas lançados pelas mesmas fontes. Ouvem os mesmos comentadores, alguns dos quais se desdobram por vários programas e vários órgãos de comunicação. Alimentam-se das mesmas intrigas partidárias e disputam entre si a exclusividade de pormenores que já pouco interesse têm.

Investigar? Isso é caro.

Aprofundar? Nem pensar em coisas maçudas.

Debater? O jornalismo não é para chatos.

Há redações em que os orçamentos não chegam para sair da sede. Há outras onde se ganha ao clique (dizem-me que isto até acontece em títulos que se dizem defensores da ética e do interesse público, mas eu não acredito - sacar audiências não é informar: toda a gente sabe que um problema com as cuecas de Ronaldo dá muito mais tráfego que o gás sarin na Síria).

Não, não é a internet que tem a culpa. O digital só faz mal aos jornais, rádios e televisões que querem viver contra o futuro. O problema é que há jornais em papel e online, rádios e televisões que escolheram ser como a maioria dos sites da net: fúteis, sem nível, sem conhecimento, sem cultura, sem rigor, sem independência. Sem incomodar.

Cada vez mais, os jornalistas, à procura de emprego estável e de vencimentos decentes, deixaram de questionar o poder (dentro e fora das redações), passaram a encolher os ombros em conferências de imprensa em que as perguntas são proibidas e vão a correr mandar o serviço para o online. Não interessa ser o melhor, o importante é ser o primeiro e bater o concorrente imaginário, nem que depois se peça desculpa pela calinada. As redações estão a absorver o pior que têm a net e as redes sociais.

Há quem tente resistir. Mas não muito, nem muitos. São mesmo cada vez menos e mais tímidos. A aposta é ir sobrevivendo. Não é inovar, impor qualidade, arriscar. Não é parar para pensar: a cobertura que está a ser dada à Baleia Azul não estará a popularizar o problema? Como se compreende o grande alarido com os casos de sarampo (afinal quem não se vacina dificilmente pode representar risco para os vacinados) quando há silêncio quase total sobre as infeções hospitalares que matam inúmeros idosos?

A palavra de ordem é recuar na qualidade, ir de cedência em cedência. A publicidade conquista terreno e mina a credibilidade com formas encapotadas para os menos atentos, como sejam os mais recentes “conteúdos patrocinados” . Por isso soube-me bem (embora este seja um tema para fazer correr muita tinta) ver a CNN recusar a publicidade que Trump queria comprar.

As férias de sonho, os chefs de cozinha (novas referências da alta cultura), os corpos das Saras Sampaios, as farmácias de serviço, a meteorologia e a forma física do ponta de lança fazem falta nas publicações. Mas só fazem falta; não podem esgotar as publicações. Serão informação, não são jornalismo.

O jornalismo é para incomodar, para fazer refletir. É para permitir decidir em consciência sobre o futuro que queremos. Isso não dá rios de cliques, mas é o que não pode acabar. E é o que precisa de liberdade para existir.

Não, hoje, os títulos mais vendidos não precisam de liberdade de expressão. Dispensaram-na, desprezaram-na em nome do espetáculo e das audiências. E o problema é que outros estão a ir atrás. Com a desculpa de que não conseguem resistir, deixam-se influenciar ou copiam os modelos mais fáceis e lucrativos.

Talvez se vão vendendo, mas porque se estão a vender.

A informação é um negócio. Uma atividade que tem de dar lucro. Mas não pode esgotar-se aí. Tal como um médico e um enfermeiro não podem ser meros assalariados e um bombeiro sapador não é um funcionário municipal como os restantes, os órgãos de informação também não podem ser stands de automóveis. Não podem existir apenas para ganhar dinheiro. Como em tudo o que tem uma função social, há obrigações e responsabilidades acrescidas.

Por isso é tão especial, por isso é tão importante, por isso é tão apaixonante. Por isso tem de ser livre.