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Pela ciência: marchar, marchar!

Carlos Moedas

Carlos Moedas

Comissário europeu para a Investigação, Ciência e Inovação

Comissário europeu para a Investigação, Ciência e Inovação

Têm sido recentemente manifestadas preocupações quanto ao futuro da ciência e investigação. Estas preocupações são motivadas por diversas notícias, como sejam os cortes na ciência e investigação propostos no projeto de orçamento apresentado pelo Governo dos EUA, a lei sobre as universidades aprovada na Hungria ou ainda as medidas contra académicos na Turquia no seguimento do golpe falhado do ano passado.

Mas o que tem cada um de nós que ver com a ciência? E o que nos importa a nós o que acontece à ciência noutros países ou noutros continentes? A resposta é simples: a ciência é de todos e para todos. Senão, vejamos.

A ciência é, desde logo, colaboração. Exige troca de ideias, o que implica que as pessoas se interliguem; cria pontes e afinidades. Ninguém faz ciência a sós. No século XIX, Darwin tinha uma vasta rede de contactos com quem trocava correspondência sobre a sua atividade científica, o que lhe permitia debater as suas ideias e teorias e também recolher informações e mesmo amostras. Einstein, tantas vezes retratado como um génio isolado, teve a influência de outras pessoas no seu trabalho, como por exemplo o seu amigo Michele Besso, cujas conversas inspiraram a teoria da relatividade especial. A própria internet, tal como a conhecemos hoje (a world wide web, ou www), nasceu no CERN, na Suíça, com o propósito de trocar informações entre cientistas e universidades pelo mundo fora.

A ciência é, também, esclarecimento; procura compreender em vez de julgar. E não é apenas o mundo natural que tem de ser estudado e compreendido, mas também o mundo social. É tão importante estudar uma doença, investigar uma vacina e convencer as pessoas a vacinarem-se para imunizar toda a sociedade como é tentar perceber os receios e as motivações daqueles que se recusam a aceitar a vacinação. A ciência, por vezes, assusta. Galileu afirmava que a Terra circulava em torno do Sol, desafiando a conceção geocêntrica da época. Hoje debatemos temas como a investigação com células estaminais, o uso de organismos geneticamente modificados ou a clonagem. Mas o mérito da ciência é o de ajudar-nos a compreender o mundo através do método científico e com base em factos. É, enfim, da ciência e da investigação que vêm soluções para alguns dos grandes desafios com que nos confrontamos hoje. As alterações climáticas, o envelhecimento populacional, as energias renováveis ou até mesmo as ameaças à segurança são desafios globais. Uma epidemia, uma seca ou uma inundação não pedem licença para atravessar fronteiras. Como tal, as soluções têm de ser encontradas de forma colaborativa, a uma escala global. E, além disso, os cidadãos têm todo o direito de exigir que as decisões tomadas pelos responsáveis políticos se baseiem em factos verificáveis.

Na Europa, a ciência merece ser celebrada. Este ano, o ERC — Conselho Europeu de Investigação — celebra o seu 10º aniversário. Em dez anos apenas, o ERC provocou uma mudança na investigação científica: desenvolveu um novo paradigma no financiamento da investigação e tornou-se uma das melhores histórias de sucesso da Europa. Os projetos financiados pelo ERC são responsáveis por seis prémios Nobel, cinco prémios Wolf e quatro medalhas Fields. Mas a ciência está sujeita a leis, regulamentações e orçamentos: é uma política entre outras. É legítimo perguntar: porque se deverá financiar a ciência em detrimento de outra política qualquer? Recentemente foram descobertos sete novos planetas pelo dr. Michaël Gillon, um bom exemplo do sucesso do ERC. O dr. Gillon, um belga baseado na Universidade de Liège, é um bolseiro do Conselho Europeu de Investigação. O problema é que, durante vários dias, ninguém soube que, por trás da descoberta dos sete planetas, estava um cientista europeu com financiamento europeu. A notícia referia apenas a NASA.

É necessário comunicar alto e bom som o sucesso da ciência na Europa; explicar a importância de investir na ciência e investigação. Podemos e devemos orgulhar-nos da ciência europeia. Uma marcha pela ciência é um bom começo. Por isso mesmo, decidi como comissário europeu responsável pela Investigação, Ciência e Inovação, mas também como cidadão europeu, associar-me à “Marcha pela Ciência” este sábado em Lisboa.