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O pós-realidade do primeiro-ministro Marcelo

É o momento da entrevista à SIC. É um momento, aliás, que ilustra bem a imbecilização coletiva que Marcelo tem imposto ao país. Não sei se Marcelo vive no pós-verdade, mas vive de certeza no pós-realidade; continua a viver numa bolha discursiva onde só ouve a sua própria voz. O tal momento é este: durante vários minutos, Marcelo traça um retrato maravilhoso de Portugal, numa aplicação à política do “Ama-te” de Gustavo Santos. Ele é paz social, ele é Guterres e Eder, ele é pessoas a darem beijinhos ao presidente, ele é uma enorme “distensão” depois de anos crispados, ele é dinheiro a cair das telhas! Num ato de caridade para com as pessoas lá em casa, Ricardo Costa interrompe Gustavo Santos para lhe perguntar “mas não acha que essa distensão é enganadora?”. Claro que o Presidente, continuando no retrato de Portugal como Camelot à beira-mar plantada, disse que “não, não é enganadora”. O país está relaxado. Ele, Marcelo, até continua a ir à drogaria onde sempre foi. Quem diria?

O problema é que esta tal “distensão” é mesmo enganadora. Aliás, se olharmos para o dicionário, “distensão” pode significar esta acalmia desenhada por Marcelo, mas também pode significar uma grave lesão ou estiramento. Lamento, mas é para aqui que caminhamos. O otimismo de Marcelo não suspende a realidade. Não há amor que nos valha perante uma despesa que não baixa, pois a sua sacralidade está constitucionalmente consagrada. Aliás, há a tal “distensão” porque o governo comprou a paz social com a constitucionalíssima “reposição de vencimentos”. Além disso, o défice fica abaixo dos 3% devido a impostos e taxas altas e a dívida insiste em não baixar. E aqui entra de novo em jogo o pós-realidade de Marcelo devidamente sublinhado pelos entrevistadores: o Presidente está a desprezar o problema da dívida, que é reforçado por um contexto europeu e internacional cada vez mais incerto.

Foi até um pouco confrangedor ver o Presidente a desvalorizar o impacto para Portugal do fim do programa especial do BCE. Da mesma forma, foi patético ouvi-lo dizer que a dívida portuguesa não subiu acima dos 4,1%, e que até desceu aos 3,85% (valor atual), como se isso fosse uma grande coisa. O ponto é que os juros de Espanha estão na casa do 1,54%. Este é o ponto. O ponto é que temos um Presidente da República que não está no perímetro da realidade. Está fora da realidade empírica e está fora da realidade institucional: é que Marcelo falou ou como primeiro-ministro, ou então como Presidente de um semipresidencialismo à francesa.