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Expresso

O Bloco Central de Palácios está vivo

Um ano decorrido, os papéis inverteram-se e poderá ter chegado a altura de o primeiro-ministro moderar o otimismo do Presidente. Para Marcelo, o que aconteceu era impensável: há um ano, a questão que lhe era dirigida era, “quando é que vai dissolver o Parlamento”, acompanhada, claro está, do clássico, “os bolcheviques já tomaram conta do Palácio?”. Meses passados, a interrogação era já outra, “vão cumprir o défice?”.

Hoje, o Presidente traça a legislatura completa como cenário político viável, anuncia metas orçamentais ainda mais ambiciosas que as já de si ambiciosas apresentadas esta semana pelo primeiro-ministro, crescimento acima do esperado e, mesmo na frente bancária, afasta “peça por peça” as nuvens negras que vislumbrava na primavera.

Não sabemos, contudo, até que ponto esta versão de Presidente com discurso de executivo e a alinhar com o Governo não terá sido marcada pelo contexto das últimas duas semanas. É verdade que o que Marcelo disse corresponde a uma consolidação do entendimento que tem feito do seu mandato, mas talvez tenhamos assistido a um aumento de volume da mensagem, muito por força dos estilhaços políticos provocados pelo acordo de concertação.

O Presidente não só defendeu o acordo firmado entre Governo e parceiros sociais, como assumiu parte da paternidade do mesmo, afirmando que gostava mesmo que este tivesse sido mais amplo e com um horizonte de médio prazo. Leia-se, a desfeita de Passos Coelho não foi apenas ao Governo e aos parceiros sociais. Foi também uma desfeita ao Presidente da República.

Acima de tudo, representa um abalo no objetivo estratégico do Presidente Marcelo Rebelo de Sousa: moderar a política portuguesa e construir um espaço de entendimento que compense o desvio de esquerda no Parlamento. Neste, como em muitos outros aspetos, os interesses de Costa e Marcelo são convergentes. A António Costa interessa ter um espaço para entendimentos alternativos aos da maioria parlamentar e Marcelo quer recentrar política e programaticamente os partidos do “arco da governação”. Passos Coelho, pelo contrário, sabe que a sua sobrevivência política depende da falência da geringonça mas, em igual medida, do fim do Bloco Central de Palácios, entre Belém e São Bento. Enquanto assim for, Marcelo e Costa continuarão a convergir e Marcelo e Passos, de forma mais ou menos escondida, continuarão a divergir.

O que a entrevista do Presidente da República mostra é que, a menos que surja uma crise profunda e inesperada, Presidente e primeiro-ministro continuam interessados em apoiar-se mutuamente. Pelo menos nos próximos tempos, a popularidade e a capacidade política de ambos depende da forma como conseguirem articular os seus interesses. O bloco central de palácios está vivo e Marcelo e Costa recomendam-no.