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Expresso

“Hoje, no dia da sua morte, quero também eu pagar a minha dívida a Mário Soares”

O meu pai era, vivo, quase da mesma idade de Mário Soares. Mas morreu muito mais cedo, aos 73 anos, nos anos 90 do século passado. À medida que envelhecia ia ficando cada vez mais parecido com Soares, as mesmas bochechas, as mesmas rugas nos olhos. O meu pai não era, nunca foi, nem nunca lhe passou pela cabeça ser, ou até que pudesse ser, figura pública. Quarta classe tirada na escola da aldeia, mãos de fazer tudo, mesmo tocar bandolim. O meu pai sabia imensas coisas – que eu nunca saberei –, podar árvores, fazer uma cadeira, plantar batatas, pôr tijolos e construir um muro, vindimar, criar patos, gansos e coelhos e curá-los quando estavam doentes, tocar harmónica também, dançar e perdoar. Sabia o nome de todas as árvores, o nome de quase todos os pássaros, não sabia era o nome dos peixes, ele que tão pessimamente pescava, ignorância de rodapé que me deixou de herança.

Mas o meu pai tinha uma coisa estranha: queria ser independente. Nasceu numa aldeia da Beira Alta, era proficiente, alegre, quase um artista; podia ser ali um pequeno rei, e não lhe bastava a aldeia, o casarão da mãe, as vinhas e os olivais de que era proprietário. O meu pai não era dos que sempre ficaram. O meu pai era e foi português de se ir embora. Levou-me com ele, à minha mãe e à minha irmã, para essa África desconhecida. Ingénuo e idealista, à apolítica maneira dele, vendeu tudo no Portugal da minha avô, as vinhas e os olivais, o casarão vazio, para ter uma vivenda em Angola, onde queria morrer, de tanto ter sido ali feliz e de tanto ter ali tido o valor que o trabalho das suas mãos, o esforço do seu corpo lhe tinha dado de presente.

Um dia o meu pai, já entre as pernas e descaído o pequeno rabo de gato que a felicidade lhe dera em Angola, descobriu que tinha de voltar. Retornar. Uma mão à frente e outra atrás, um frigorifico, uma moto, camisas de manga curta e um black and decker em três caixotes num barco, a família menos eu num avião por caridade da social-democracia sueca.

E agora me lembro que o meu pai me disse, por outras palavras, a mesma frase que hoje, no dia da sua morte, ouvi dizer de Mário Soares, que não era homem de desistir. E do nada, de um subsídio do IARN e de uma casa senhorial, tão bonita e abandonada, sem água nem luz, à saída de Pinhel, que sem condições nem um centavo de pagamento lhe emprestou Manuel Vilhena, deputado da ASDI, um mini semi-partido entalado entre o PSD e o PS, o meu pai, obrigado outra vez a ser o agricultor que não queria ser, refez, tijolo a tijolo, vindima a vindima, lagar de azeite a lagar de azeite, a sua vida.

Muitos outros portugueses, tão anónimos e gigantes como o meu pai, o terão feito. Mas o que sempre admirei nessa persistência, nessa secreta vontade indómita dele, era não ter ressentimento. Voltou a amar Portugal. E se lhe doía a descolonização não foi nunca a Mário Soares que a foi cobrar. Dia a dia, nas bochechas, nas rugas, no sorriso, era com Soares que se ia cada vez mais parecendo. Ou, digo eu, Mário Soares com o meu pai, que nunca viu e nunca conheceu. Um dia, invasivo, espreitei-lhe a carteira, que talvez ele tenha querido que eu visse. E, na carteira do apolítico trabalhador assalariarado angolano que me educara em Angola, estava agora um emblema do partido socialista que Soares criara.

Hoje, no dia da sua morte, quero também eu, como faria o meu pai se algum dia tivesse alguma, pagar a minha dívida a Mário Soares. Em primeiro lugar quero pagar o que devo à sua resistência ao salazarismo. Mário Soares foi dos raros que em Portugal resistiu às claras. Tenho a certeza que, a muitos, foi forçoso resistir na clandestinidade e que foi heróica a batalha. Mas a resistência aberta de Soares – mostrando a cara aos PIDES, enfrentando-os publicamente – era já um clamoroso indício da democracia que desejava, o modelo de resistência dos Ghandi e dos Luther King. Não é só resistência, é também uma escola para o mundo que se quer erguer a seguir.

Quero depois pagar-lhe a resistência à ditadura comunista de que ele foi o comandante, mostrando que a esquerda só é esquerda se souber distinguir-se e combater a tentação totalitária da extrema-esquerda, da mesma forma que a direita só é direita se souber vencer as tentações fascistas que a possam assaltar. Sem a Fonte Luminosa não teríamos a democracia.

E quero pagar-lhe a dívida maior, a lição que nos deu de como viver a política em democracia. Com alegria e com defeitos. Com idealismo e com grandes calinadas. Confesso, eu temo os virtuosos, os focados, os impolutos. Isto é, eu temo os absolutos. Foi a celebração da vida, da imprevista vida, com os seus prazeres, luxos, deleites e dores, que Mário Soares cantou e nos ensinou exuberantemente a cantar na sua vida pública. Na sua humildade de tocador de bandolim em festas de aldeia foi também esse o segredo da tão grande bondade do meu pai.