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António Filipe escreve sobre Fidel: “Até sempre, Comandante”

REUTERS

Num texto exclusivo para o Expresso, o deputado do PCP escreve sobre a revolução cubana e o impacto de Fidel Castro em todo o mundo

António Filipe

Acordámos hoje, 26 de novembro de 2016, com a notícia da morte de Fidel Castro. Apesar de se ter afastado há cerca de dez anos da direção do Partido Comunista e do Estado Cubano, Fidel Castro permaneceu como uma referência incontornável não apenas para o povo de Cuba e da América Latina mas para os revolucionários e democratas de todo o mundo.

Fidel Castro foi, desde muito jovem, o dirigente máximo da luta do povo cubano contra a ditadura de Fulgêncio Batista e pela libertação do seu país do domínio imperial dos EUA. Dirigiu a revolução vitoriosa que derrubou a ditadura em 1959 e assumiu o papel liderante de um processo revolucionário original que suscitou a solidariedade de todos os que prezam a luta dos povos pela sua independência, dignidade e emancipação social.

Sob a liderança de Fidel, o povo cubano enfrentou um cruel bloqueio económico imposto pelos EUA e que perdura há mais de cinco décadas e que se traduz em imensos prejuízos para a economia de Cuba; enfrentou um período especial após o colapso da URSS que obrigou a grandes sacrifícios e a todo um redireccionamento da estratégia de desenvolvimento económico do país num momento em que o bloqueio norte-americano se intensificou com as leis Torriceli e Helms-Burton visando assumidamente liquidar a revolução cubana; enfrentou sabotagens, tentativas de invasão e atentados terroristas, perpetrados a partir de Miami, em Cuba em Cuba e no exterior, como foi exemplo a atentado contra a Embaixada de Cuba em Lisboa em 1975.

Apesar disso, a revolução cubana conduziu a um enorme avanço social e civilizacional. O investimento na saúde, na educação e na conquista de níveis de bem-estar social constituem uma honrosa imagem de marca da revolução cubana. Na América Latina há milhões de crianças a viver na rua, mas nenhuma é cubana. Cuba não é um país rico, mas a miséria e a violência social que marcam o quotidiano de tantos países latino-americanos não são realidades com que os cubanos se confrontem. Aliás, o espantoso investimento na medicina cubana permite a este país apoiar de forma solidária os países menos desenvolvidos ou vítimas de catástrofes sanitárias com o envio de milhares de médicos que testemunham nos quatros cantos do mundo o prestígio da revolução cubana.

Fidel Castro foi um homem portador de um carisma excecional, universalmente reconhecido, enquanto dirigente revolucionário, enquanto estadista, intimamente ligado ao seu povo e a sua Pátria, mas também enquanto personagem fascinante da História e como figura incontornável do movimento comunista e revolucionário mundial, dotado de uma ímpar capacidade de comunicação e de uma extraordinária lucidez na apreciação dos fenómenos marcantes do mundo em que vivemos.

A forma como participou na criação de condições para o seu afastamento da liderança do Partido e do Estado em Cuba e para a garantia de uma transição sem sobressaltos e que não pusesse em causa as conquistas e a natureza socialista na revolução cubana, fica como mais um testemunho impressivo do seu legado de revolucionário. As incógnitas que muitos profetizavam com o desaparecimento de Fidel foram resolvidas com a participação do próprio.

No momento em que Fidel desaparece fisicamente, a revolução cubana tem todas as condições para prosseguir dentro do espírito daquele que foi o seu dirigente máximo, adaptando-se a novas realidades, e procurando sempre, com uma ampla participação popular, os melhores caminhos para uma sociedade justa e solidária.

António Filipe também é presidente do Grupo Parlamentar de Amizade Portugal-Cubana