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Opinião

O sedutor da liberdade

Miguel Nogueira / CM Porto

Amante da liberdade e ferozmente independente, o advogado portuense e fundador do PSD morreu esta semana. O presidente da Câmara do Porto recorda o seu percurso

Rui Moreira

Conhecia o Miguel Veiga desde que me conheço a mim. Apesar dos 20 anos de diferença, ele era o amigo dos meus pais que sempre admirei e que me inspirou. Talvez por não ter filhos, o Miguel tinha uma infinita paciência para com os mais novos e com eles desenvolvia uma enorme empatia. Esta nossa amizade não acabou: durará enquanto eu for vivo e, um dia, passará para o meu filho David, que o Miguel reclamava como meio seu.

Miguel Veiga personificava, como ninguém, a burguesia liberal e culta do Porto. A esse propósito explicava que a “burguesia do Porto vem do trabalho e, não assentando a sua superioridade no sangue, se viu obrigada a apurar a sua educação, o gosto, a cultura, o que explica a sua identidade pela diferença face ao exterior e uma homogeneidade face ao interior”.

Miguel Veiga era um resistente, de uma geração notável de portuenses dessa burguesia esclarecida, de que muitos, como Francisco Sá Carneiro, António Rocha e Melo e Vasco Graça Moura, já desapareceram. Na liberdade e na ética, Miguel Veiga encontrava os seus valores supremos. Era, nessa questão, um fundamentalista, que não se deixava tentar pelo poder. Foi um grande homem da política mas, por sua escolha. Nunca ocupou os cargos políticos executivos que lhe imporiam a disciplina que abominava e lhe coartariam as escolhas que, em cada momento, queria ser livre de fazer. Acreditava nos valores da ética, porque “o intervalo irredutível que separa o bem do mal, o tolerável do intolerável, permite que haja valores no mundo”. Era um homem de um tempo que, infelizmente, está a desaparecer, um lutador pelo liberalismo pragmático e dialogado, por oposição ao dogmatismo ético, que se afligia com o ciclo pós modernista das democracias, mais “preocupadas com as normas do bem-estar do que com as obrigações supremas do ideal”.

O sentido de ética e o apego à liberdade de Miguel Veiga radicavam na sua dimensão cultural, que herdou dos pais e aperfeiçoou ao longo da vida. Amava a poesia, sabia um pouco de tudo, tinha um particular e intuitivo gosto pela pintura. Nas suas casas, as paredes eram disputadas entre os imensos livros e os muitos quadros que colecionou com sapiência que lhe permitia adquirir obras de artistas ainda desconhecidos e que mais tarde se viriam a revelar como excecionais. O seu sentido estético fazia dele um extraordinário sedutor, com uma rara elegância e um humor fino no discurso e no trato, com um afeto que lhe permitiu construir muitas amizades.

Era, no entanto, um adversário temível, quer na barra, como grande advogado, quer na política. Combateu sempre pelas suas convicções, antes e depois de Abril, quando se preocupou com a nossa democracia, de “igualdade aproximada e de fraternidade intermitente”. Foi fundador do PSD, mas dava primazia às suas escolhas pessoais. Teve desaguisados com o seu amigo Sá Carneiro, não hesitou em se empenhar por Mário Soares e apoiou-me, em oposição às opções do seu partido, naquele que foi o seu último combate político.

Entusiasmou-se com a minha candidatura à Câmara do Porto, que inspirou desde a primeira hora. Recordo o seu otimismo quando muitos achavam que era um devaneio. As suas intervenções na minha campanha foram arrebatadoras, inesquecíveis. Queria o que era melhor para o Porto, por quem tinha uma paixão patriótica e nada bairrista, sentimento que o seu cosmopolitismo nunca lhe permitiria abraçar. Durante aqueles meses, deu-nos tudo, com a sua experiência crítica. Foi sentado a seu lado que soube da nossa vitória. Foi dele o primeiro abraço nessa que seria a sua última vitória.

Depois, a saúde foi-lhe faltando. A cidade do Porto deu-lhe a maior das suas condecorações, que lhe entreguei num dia feliz, mas a academia recusou o doutoramento honoris causa que merecia e que lhe tinham prometido. Inimizades de quem não gostava da sua independência e de quem foi por ele derrotado em muitas lutas, a par da falta de empenho ou da tibieza de alguns que tantas vezes dele se tinham socorrido, ditaram esse momento triste. Felizmente, o Miguel nunca o terá sabido, e assim manteve o seu sorriso, rodeado pela Belicha, a sua extraordinária mulher, pela neta Leonor, e por uma corte de fiéis amigos, de que fiz parte, e que o mimaram, como ele apreciava, até ao seu último dia.

O Porto despediu-se dele como ele quereria. No Palacete dos Viscondes de Balsemão, com as flores que ele adorava, ao som do piano, com os raios de sol a invadirem a sala, com Humberto Delgado, o seu herói, a vigiar-nos na Praça de Carlos Alberto, com a Belicha e a Leonor que iluminava o seu sorriso, com o Artur Santos Silva, o Luís Neiva Santos, o Francisco Balsemão, o Valdemar Pereira da Silva, o Luís Valente de Oliveira, a Maria João Avillez, e todos os amigos que lhe restavam, com o sentimento comum, partilhado pela cidade, de que o Porto era a sua Pátria. Nessa despedida, recordei as palavras que um outro amigo, Eugénio de Andrade, lhe dedicou:

“Eu gosto de gente assim, capaz de fazer da própria vida a mais bela das obras”.

A vida do Miguel foi assim.