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Miguel Poiares Maduro

Como a democracia nos trouxe Trump

Foto:Goncalo Rosa da Silva

Professor e ex-ministro responsabiliza os políticos e os media

Há várias explicações para a vitória de Trump e muito será também dito sobre como os media e as elites não souberam prever essa vitória e o que isso diz sobre o crescente distanciamento entre as elites e o povo.

Mas talvez o mais importante seja discutir por que razão a democracia favorece hoje candidatos como Trump. Sejam eles populistas perigosamente ideológicos (como Le Pen), sejam populistas do oportunismo (como Trump). Que o descontentamento social e as razões para o mesmo existam é uma coisa. Mas que um candidato como Trump, que os próprios eleitores americanos consideram impreparado e pouco confiável, seja a resposta é outra. As razões pelas quais as nossas democracias favorecem esta forma de fazer política é o que une a eleição de Trump aos populistas na Europa ou ao ‘Brexit’. A América é suficientemente forte para sobreviver à presidência de Trump e pode ser que também seja capaz de proteger o mundo dele... Mas a profunda crise que as democracias nacionais atravessam é o problema fundamental que temos de afrontar. A democracia necessita de organizar formas de participação e representação democrática mas também de produzir resultados. Estas duas dimensões estão relacionadas. Problemas na qualidade da democracia impedem-na de produzir resultados E se a democracia não produz resultados a qualidade da democracia é posta em causa. É nesse círculo vicioso que nos encontramos hoje. A democracia não se soube adaptar a um mundo interdependente e tem vindo a perder os seus instrumentos de racionalização.

O mundo globalizado trouxe imensos benefícios, desde logo retirando da pobreza milhões de pessoas. Mas também afetou os equilíbrios redistributivos em que assentam os contratos sociais das nossas sociedades. A desigualdade agravou-se embora seja uma desigualdade diferente (entre os que estão fora e dentro dos sistemas de proteção do Estado, entre gerações e entre todos e o 1% dos muito ricos). Com isso também tem diminuído a mobilidade social. Na resposta a este como outros desafios a democracia é vista como ineficaz, em consequência do mundo interdependente em que vivemos. Só que, em vez de assumirmos que esta interdependência exige construir mecanismos de resposta política diferentes para gerir a dependência mútua das nossas democracias, a nossa política tende a culpar essa interdependência. Para ter ganhos políticos imediatos é mais fácil culpar os outros do que assumir as consequências da interdependência. Nisto, os populistas serão sempre mais eficazes. O autoritarismo é apelativo perante uma democracia apresentada como vergada aos outros. E os populistas são os melhores a apresentar culpados, não soluções.

Para o sucesso deste populismo muito contribui a perda de racionalidade no espaço democrático. Para a democracia cumprir a sua função de arbitrar e reconciliar preferências diferentes dos cidadãos é necessário racionalidade. É esta que nos permite comunicar, debater (e não simplesmente discutir) e até chegar a entendimentos. A perda de relevância e credibilidade dos partidos, a multiplicação da democracia direta e media cada vez mais focados no imediato e no espetáculo do combate têm reduzido as formas de racionalização da nossa democracia. O que conta são as narrativas, não os factos. O que é valorizado é o conflito e não a abertura ao compromisso. E a comunicação política sobrepõe-se hoje ao debate e conhecimento de políticas públicas. O espaço político torna-se cada vez mais polarizado e violento, o conhecimento é desprezado e o entretenimento político domina. Trump é a expressão disto mesmo.

Muitos falam também da crise do sistema político português, mas enganam-se quando pensam que a solução está numa reforma do sistema eleitoral. O problema está, sobretudo, na cultura política e mediática. O PR acenou a isso mesmo, recentemente, embora, paradoxalmente, como comentador, tenha alimentado esse modelo de avaliação política centrado no sucesso da estratégia política em vez da qualidade das políticas prosseguidas e que depende do antagonismo em vez do compromisso para ter sucesso mediático. O que é necessário, mas não fácil, é mudar a cultura da nossa classe política e dos media. Se não o fizermos os cidadãos acabam por preferir qualquer coisa a “esta” política.