Siga-nos

Perfil

Expresso

Portugal feliz? Visite agosto no Facebook

  • 333

Um acervo de felicidade encenada para salvação futura

Quem tenha estado a trabalhar nesta quinzena de agosto e espreitado o Facebook pôde acompanhar ao pormenor as férias de muitos portugueses. Com uma particularidade: foram todas, mas todas, extraordinárias, fantásticas, cheias de momentos inesquecíveis; o mar esteve sempre azul-turquesa, as bebidas geladas, a areia dourada (benditos filtros, há já um que elimina as multidões à beira-mar). As fotos não mentem. Os murais do Facebook escorrem sorrisos bronzeados, corações ao sunset, grupos que irradiam aquela luz interior da amizade. E, contudo, contudo, alguns deles até conheço. Dá-se o caso de até saber, por conversar antes de partirem, que estavam com ‘depressões & problemas’, coisas graves, tretas sérias, vidas madrastas. E olha-os agora. O Facebook passou a ser uma encenação de uma vida ficcional que aceitamos sem questionar. O piorzito é que o Facebook (e Instagram) passou a ser uma tentativa de destabilizar o outro que não foi, o que ficou a trabalhar — o que acaba por ser um viver para o chefe que detestamos —, para a amiga que admiramos, para o ex que está bem, enfim. Ninguém posta que isto está a ser uma miséria, os preços são péssimos, estou a detestar. Nada. Tudo happyyyyy.

Corre-se o feed. Não é possível que haja tanta gente feliz à beira-mar. Aliás, basta frequentar praias para o constatar. Pelo resultado, cada vez mais se avoluma a tese de as redes sociais se estarem a tornar um instrumento para preservar uma felicidade ficcionada, criada para servir aos “amigos”. Presentes e futuros. Um acervo de vivências exuberantes.
Esta é uma hipótese já aqui descrita a propósito de o “Medo de Ficar de Fora” (ou FoMo), que obriga a estar sempre a ir ao telemóvel tentar ver o que os amigos estão a fazer. Não estejam eles a divertir-se por nós. A ida para férias é um medo maior. As minhas férias têm de parecer melhores do que as dos outros. Tudo isto é causa de ansiedade social.

Numa altura da vida deixei de comprar artesanatos nas viagens. Um stresse. Era mais um penduricalho para a prima da prima. Recentemente, as fotos de telemóveis vieram preencher esse espaço de ansiedade cumulativa. Era absolutamente necessário a foto no local, para postar. O Facebook assim o exigia. Mais uma vez deixava de ser algo para nós (a viagem), para passar a ser para o outro. E a angústia: perdi aquele local. Ou seja: não tirei lá uma foto.

As redes sociais e os telemóveis têm tido um impacto poderoso em todo o planeta, que estamos a tentar compreender. E que passa também por esta patética necessidade de representação de felicidade e controlo sobre a felicidade dos que nos estão próximos, além da dimensão global da comunicação que nos ultrapassa. Basta imaginar que não há praticamente aldeia de África sem serviço de telemóvel. Há rede, há cartões. O que se vende é a energia para recarregar o telemóvel, dado que não há eletricidade, sequer. Esta impossibilidade da não comunicação é algo que ainda não assimilamos e não percebemos. Não trouxe desenvolvimento, mas frustração às tribos de telemóvel, mas sem saneamento ou furo de água.
Voltando ao que perturba no quotidiano: esta utilização das redes como uma certa representação de felicidade encenada em competição com os amigos. Mas é esta “ilusão hipócrita” algo típico das redes? É neste ponto que os “pouco dados” às redes sociais costumam sacar do argumento dos “amigos verdadeiros” do “mundo real”.

Lia preguiçosamente o “New York Times” de domingo quando um título puxou por mim: “Será que os seus amigos gostam verdadeiramente de si?” A mais recente investigação que envolve neurociência, psicólogos e cientistas comportamentais de todo o tipo, com a chancela do MIT, garante que há uma grande desconexão entre muitos daqueles a quem chamamos amigos e o que eles pensam de nós. Ou seja, há um grande mal-entendido sobre os que se consideram nossos amigos. Aqueles que habitam o mundo em que vivemos e interagem connosco nem sempre têm a ideia que nós achamos que eles têm de nós. Apenas, para aí, metade dos que consideramos nossos amigos responde na mesma moeda. Alguns deles nem sequer nos gramam.

Acontece que hoje se utiliza a expressão “fulano de tal é meu amigo” no sentido em que se usa a pessoa como um “investimento ou um bem móvel de futura utilização transacionável”, perdendo-se a noção do que é a amizade. Sicrano é apresentado publicamente como meu amigo porque me interessa para algo. É por isso natural que muitos não se revejam nesse estatuto, até porque aplicam as mesmas normas a outros. Por alto, metade das pessoas que consideremos amigas não acham que o são — diz o tal estudo. Usam o termo como peças cumulativas de estatuto. Ao dizer “sou amigo de fulano X” estou a valorizar-me (mesmo que o X me ache um idiota).

Tudo isto é triste. Mas a vida é triste. E em agosto tudo passa. Irei para a praia saltar e rir para a foto do Facebook. (E estará um cínico em casa a escrever uma crónica sobre o assunto e a desmascarar a marosca, mas a mostrar que é igual aos outros)