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Opinião

Miguel Azevedo (diretor-geral do Citigroup) *

O referendo do Brexit e os potenciais impactos económicos e políticos na Europa e em Portugal

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A opinião de Miguel Azevedo, diretor-geral do Citigroup, sobre o Brexit. “É fundamental que Portugal se foque numa política de crescimento económico baseado em exportações”, considera o também responsável pela banca de investimento do Citi em Portugal e África

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Os ingleses, os europeus e o mundo inteiro acordaram no dia 24 de Junho com uma realidade que era muito diferente daquela com que tinham adormecido; Brexit tinha de facto acontecido.

O Reino Unido, talvez o país mais internacionalista e inclusivo do mundo – onde (1) o muito respeitado Governador do Banco Central é um estrangeiro, (2) o muito admirado CEO de um dos maiores bancos é Português e (3) o muito credível Presidente da maior Câmara Municipal de um país maioritariamente cristão é muçulmano praticante – tinha votado para sair da UE.

Neste contexto é algo surpreendente que um dos principais temas em debate durante a campanha tenha sido (1) a Imigração (se bem que na verdade não foi tanto a imigração em si mas mais o impacto económico de receber imigrantes e de imediato ter que oferecer os benefícios sociais com o custo que isso implica para todo o sistema britânico); talvez o segundo principal tema seja menos surpreendente: (2) a vontade de voltar a controlar os destinos do próprio país (reduzindo a “interferência” europeia nas coisas mais banais da vida). É lícito admitir que toda esta discussão teve mais a ver com a velocidade e o grau com que estes fenómenos estavam a acontecer do que propriamente com o seu teor e aqui reside um ponto para consideração de todos.

Se analisarmos como votou a população, estudos posteriores ao referendo indicam que se tratou de um referendo onde muita gente votou como forma de protesto e não necessariamente com a intenção de sair; parece também ser claro que as gerações mais novas (que serão aquelas que irão de facto ter que viver fora da UE a maior parte da sua vida) votaram massivamente para ficar (73% dos votantes com idades entre 18 e 24 e 62% dos votantes entre 24 e 34 anos votaram a favor da Permanência!) enquanto aqueles já estabelecidos na vida votaram pela Saída.

Tudo isto é verdade e relevante mas creio que em Inglaterra (ao contrário de outros países Europeus) um referendo é para se respeitar e será respeitado independentemente de todas as análises político-sociológicas que venham a ser feitas à posteriori. E agora?

Impacto económico

Em termos económicos estima-se que o impacto económico seja negativo mas não dramático; no PIB britânico redução de 1 ponto percentual por ano ao longo de 4 anos (ou seja nada dramático) e no resto da Europa seja algo próximo de metade disto (novamente nada de dramático). No longo prazo provavelmente será ainda mais irrelevante (assumindo um acordo de separação economicamente sensato)

Este impacto negativo no Reino Unido será essencialmente devido a um forte abrandamento no investimento naturalmente à espera das condições futuras de relacionamento com a UE. Na Europa em geral, o elemento a destacar será uma maior incerteza (provavelmente durante 2 anos), que gerará maior volatilidade e maior perceção de risco. É pois natural que o desempenho económico e dos mercados financeiros venha a refletir este maior prémio de risco e por isso provavelmente menos positivo.

Em termos de mercados bolsistas, alguns sectores tenderão a ser mais sensíveis aos acontecimentos e na linha da frente tem estado e deverá continuar a estar o sector bancário.

Convém também salientar que esta noção de maior prémio de risco pode vir a estender-se aos países da “periferia europeia” e por isso levar a uma subida das taxas de juro para estes países; pode inclusivamente voltar a questão de se o Euro é sustentável ou não, questão para a qual o impacto político deste referendo será também essencial.

Impacto Político

É fundamental que a gestão da saída seja o mais racional e menos emocional possível por forma a minimizar os impactos para ambos lados se bem que possa haver ângulos políticos associados a esta questão.

No curto prazo é possível que, nomeadamente, nos países mais fortemente contribuintes para o Orçamento comunitário apareçam novas iniciativas a favor de eventuais referendos sobre este nível de integração política; isso aumentará a perceção de risco económico e em particular para os países que são recetores líquidos do Orçamento comunitário (ie os ditos “periféricos” seja a leste ou a sul da Europa)

No médio prazo a UE perde a voz estruturalmente (ie independentemente de quem está no Governo) mais liberal e menos estatizante e isto pode levar a alguma instabilidade. Países tendencialmente mais ortodoxos economicamente, como a Alemanha e a Holanda, vinham assumindo um papel de “construtores de consensos” entre os mais minimalistas (Reino Unido, Finlândia,..) e os mais integracionistas (em geral sul da Europa, liderados pela França). Este equilíbrio poderá estar em risco até porque a Alemanha e a Holanda assistem a um reforço no seu seio das vozes mais críticas.

Já tinha havido várias ameaças ao nível de referendos no passado (que porventura não foram levados demasiado a sério) mas agora o Brexit é de facto um verdadeiro susto e cria definitivamente momentum para que tudo seja reanalisado. Penso por isso que esta crise poderá levar a uma evolução mais no sentido da “Europa das Nações” do que propriamente no sentido da “Nação Europa”, eventualmente criando uma época de consolidação do projeto europeu em bases menos ambiciosas mas quiçá mais realistas.

Impacto para Portugal

Conforme decorre do exposto acima, é possível que os mercados venham a ter uma visão mais fundamental (ie baseado em indicadores económicos) e menos política (ie baseada em declarações e visões políticas). Nesta circunstância, os mercados olharão para cada país e analisarão se têm políticas sustentáveis que lhe permitam viver dentro das suas próprias disponibilidades e com os seus próprios meios.

Neste cenário a meu ver é, agora ainda mais que no passado, fundamental que Portugal se foque numa política de crescimento económico baseado em exportações (por forma a vivermos com o que produzimos) e com deficits públicos e externos absolutamente sob controlo, pois infelizmente temos um stock de dívida pública e privada, externa, que não nos permite ser imune aos mercados. Só assim (1) nos poderemos resguardar de uma incerteza e volatilidades mais elevadas que deverão caracterizar os próximos anos e (2) só assim poderemos ter controlo sobre o nosso próprio destino.

* as opiniões expressas neste artigo são exclusivas do autor

  • “Deve haver perdão de dívida na Europa”

    Acredita que o ‘Brexit’ pode não se concretizar, mas não acha que o resultado do referendo possa desencadear uma crise financeira. Grave, sim, é ter a Europa por recuperar ainda dentro de dois anos e nos EUA um Presidente incapaz de ajudar a economia global.

  • “Fala-se em reformas e a crise desaparece”

    O economista americano não tem dúvidas de que a política monetária sozinha não resolve os problemas. E não acredita no discurso ‘mágico’ das reformas estruturais. Defende que a política orçamental deve participar. Não acha o ‘Brexit’ um novo Lehman Brothers mas avisa que uma vitória de Trump pode ser.

  • Milhares de nritânicos marcham contra o Brexit

    Londres é este sábado palco de uma manifestação contra o resultado do referendo sobre a saída ou permanência do Reino Unido na Europa. São milhares de pessoas aquelas que já demonstram o seu desagrado pelo Brexit no centro da capital inglesa