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Expresso

Revolta e choque

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Um referendo mostra a clivagem entre Londres e o resto do país e entre as gerações novas e mais velhas. Nada ficará como dantes

O processo de decisão estratégico, todavia, tende a ser sempre rodeado por estas incertezas. Depois do referendo, as sociedades e os líderes europeus deixaram de ter o luxo de ir para intervalo. Temos de compreender o que aconteceu e tomar as primeiras opções.

Que nos mostra o resultado do referendo no Reino Unido?

Sobretudo duas coisas. O país vive do comércio internacional, mas as consequências da Grande Recessão de 2007-2009, a evolução da globalização, o fraco crescimento económico e a queda da produtividade minaram a confiança da maioria da população em relação aos partidos políticos tradicionais.

A guerra civil na Síria e a fragmentação do Médio Oriente transformaram a imigração na questão central do referendo. A identidade nacional e cultural ganhou à economia, às finanças e ao comércio As consequências a nível interno e externo dependerão muito do que vai acontecer em Londres, Bruxelas e Washington nas próximas semanas e meses.

Dito isto, temos de considerar seriamente a possibilidade de a Escócia poder ter a possibilidade de se tornar um país independente na próxima década. Se isso acontecer, a Inglaterra terá pela primeira vez em séculos um país independente na sua fronteira norte.

A estabilidade da Europa tem sido um dos pilares da política externa de Londres. O paradoxo de 23 de junho é que a opção pela separação política de Bruxelas tornará esta estabilidade ainda mais importante para os decisores ingleses. O resultado do referendo enfraquece o eixo europeu mais cético em relação à Rússia na NATO — Londres, Suécia, Polónia e países bálticos — e mais determinado na defesa da ordem europeia de 1989-1991.

Ao nível económico, fiscal e orçamental, Berlim perde um aliado crucial nos debates europeus. O futuro da Parceria Transatlântica de Comércio e Investimento (TTIP) ficará ainda mais em dúvida.

O 23 de junho não é um fenómeno meramente inglês mas sim um sinal do crescente ceticismo das sociedades europeias em relação à UE. Estamos literalmente presentes na criação de novas regras para a ordem europeia.

É urgente pensar nas consequências de tudo isto para Portugal.