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Opinião

Augusto Santos Silva

É tempo de unidade e cabeça fria

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MNE diz que a UE não pode reagir ao ‘Brexit’ com novas derivas integracionistas que não seriam acompanhadas pelas pessoas

O resultado do referendo britânico é muito negativo. A União Europeia (UE) vive várias crises: a insuficiência da resposta aos refugiados, as migrações irregulares, a debilidade do crescimento e a incompletude da união monetária, o afastamento dos cidadãos, a ascensão do nacionalismo e dos populismos, a ameaça terrorista. A saída do Reino Unido coloca dificuldades adicionais. Não há como negá-lo.

Mas a decisão do povo britânico deve ser respeitada. A negociação que se vai seguir tem de ser encarada com prudência, determinação e bom senso, para não gerar perturbações perigosas, designadamente no ambiente económico e financeiro.

Independentemente da variedade dos assuntos a tratar, o processo de saída do Reino Unido deve assegurar três objetivos essenciais. O primeiro é mantê-lo como um pilar fundamental do edifício europeu de defesa e segurança, através nomeadamente do reforço da cooperação entre a UE e a NATO. O segundo é evitar que a saída represente o fecho abrupto do Reino Unido ao mercado europeu de trabalho e de bens e serviços. O terceiro é preservar as condições para que as ilhas britânicas participem ativamente nos motores da economia europeia, designadamente na área da energia, do mundo digital e do comércio e investimento internacional.

Quanto à UE, ela não pode reagir ao ‘Brexit’ com novas derivas integracionistas, que não seriam acompanhadas pelas pessoas. Não se trata de exigir, à maneira da vanguarda iluminada, uma súbita marcha forçada para patamares mais altos de federalização. Agora, não precisamos de “mais Europa”, mas de uma Europa mais bem compreendida e assimilada pelos seus povos e nações.

E há uma maneira simples de o fazer. É ordenar as prioridades. As mais urgentes são três: liberdade, segurança, prosperidade. Liberdade quer dizer valorização dos princípios democráticos, da instituição parlamentar e das liberdades que são o símbolo mesmo da União, a começar pela liberdade de circulação, a dignidade humana e a não discriminação por razão de nacionalidade. Segurança quer dizer defesa do nosso modo de vida face às ameaças terroristas, a que vem de fora e a que vem de dentro do nosso próprio território, o que implica mais cooperação policial, mais segurança cooperativa, melhor articulação das questões de segurança e das questões de desenvolvimento. Prosperidade quer dizer relançamento económico, com atenção particular ao emprego, à inovação e à juventude, e a consciência clara de que a consolidação orçamental e a estabilidade financeira são instrumentais para a criação e distribuição de riqueza e não o contrário.

Integração europeia? Certamente, mas hoje prefiro sublinhar unidade europeia. Medo? Todos o sentirão, mas a melhor resposta é manter a cabeça fria.