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Expresso

União Europeia: o primeiro dia do resto da sua vida

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Hoje é verdadeiramente o primeiro dia do resto da vida não da Grã-Bretanha, mas da União Europeia. Daqui para a frente, como diz a canção brasileira, tudo vai ser diferente. E tudo vai ser pior

A saída do Reino Unido da União Europeia acontece pelos piores motivos. As consequências terão um impacto devastador. Mas agora hás pouco a fazer quanto a essa decisão, pelo que há que rapidamente seguirmos o que disse o Marquês de Pombal aquando do grande terramoto que devastou Lisboa em 1 de novembro de 1755: sepultar os mortos, cuidar dos vivos.

A uma jogada política arriscadíssima de David Cameron, por motivos internos, respondeu a União Europeia de forma igualmente arriscadíssima, concedendo à Grã-Bretanha um conjunto de exceções que estão contra o espírito fundador do processo de construção europeia.

Nenhum se pode queixar pelo que agora aconteceu. O primeiro-ministro britânico tem os seus dias contados e passará à História como um jogador irresponsável que, por questões de luta política interna e para tentar garantir a sua sobrevivência, pôs em causa, de forma dramaticamente perigosa, o destino de mais de 320 milhões de pessoas que vivem nos 28 Estados membros da União.

Mas também a União tem responsabilidades neste resultado, pela forma como se foi burocratizando mais e mais, como se foi afastando da vida e dos anseios dos cidadãos, como deu passos irresponsáveis (como o enorme alargamento a leste), como foi tentando fazer sempre pela calada dos gabinetes o caminho do federalismo e como aproveitou a crise económica para impor decisões tomadas por estruturas que nem sequer existem nos tratados, caso evidente do Eurogrupo.

Em abono da verdade se diga que o Reino Unido nunca esteve de alma e coração na Europa. Não foi um dos Estados fundadores, chantageou em muitas ocasiões a União para defender os seus interesses particulares e o seu maior aliado sempre foram os Estados Unidos. A sua saída poderia ser apenas a consequência natural dessa postura ao longo de décadas. Mas o facto de ser a terceira economia da União muda radicalmente as coisas.

Hoje os mercados financeiros estarão nervosíssimos e em colapso. O tsunami vai estender-se por várias semanas e as bolsas e as divisas vão entrar numa montanha russa onde só há descidas. A economia britânica vai abrandar fortemente, mas haverá reflexos inevitáveis sobre a economia e a situação política europeia. A Escócia e a Irlanda farão referendos para ficar na União. Os movimentos independentistas na Europa ganham um poderoso aliado. A União vai precisar de fazer muito mais do que tem feito até agora para manter o projeto europeu. Podemos estar a caminho do regresso da União ao núcleo duro fundador, com mais um país, a Espanha. Ou da implosão do euro e do projeto sonhado por Jean Monnet e Robert Schumann – o que quer dizer, o regresso à possibilidade de voltarmos a ver nascer em solo europeu uma nova guerra mundial.

Portugal não ficará à margem de todas estas devastadoras consequências. Desde logo, porque nos últimos dois/três anos, o Reino Unido foi o principal destino da imigração portuguesa. Há hospitais ingleses onde a maioria dos enfermeiros são portugueses. Vivem nas ilhas cerca de 1500 investigadores, cientistas e estudantes portugueses. E há diversos investimentos nacionais naquele país. Os efeitos económicos negativos da decisão britânica vão pesar sobre a economia nacional e colocar-nos em piores lençóis do que já estávamos. As trocas comerciais com a Grã-Bretanha vão passar por uma fase de retração e grande instabilidade. O facto de a Grã-Bretanha ser o nosso mais antigo aliado não conta para nada nos tempos que vivemos.

Hoje é verdadeiramente o primeiro dia do resto da vida não da Grã-Bretanha, mas da União Europeia. Daqui para a frente, como diz a canção brasileira, tudo vai ser diferente. E tudo vai ser pior.