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Miguel Cadete

Miguel Cadete

Diretor-Adjunto

Quando o Reino Unido faz pop

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A mais antiga democracia do mundo decidiu. Entretanto, alguém se esqueceu que a palavra pop, além de estoiro, também quer dizer popular

Nunca deixei de me surpreender com o fenómeno da música pop britânica. Como um pequeno país com uma população de 60 milhões de habitantes pode influenciar tanto e durante tanto tempo o mundo foi coisa que sempre me intrigou.

Ainda hoje não sei a resposta. Mas sei que, ao contrário do que sucede em Portugal e em muitos outros países, uma das fortalezas inexpugnáveis da pop britânica é o poder da sua cultura operária. E a esse respeito, a capital não está sediada em Londres mas sim nas cidades do Norte de Inglaterra como Manchester ou Liverpool. Nos lugares onde a votação a favor da saída da União Europeia foi mais clara e indiscutível.

Nos últimos anos, o Reino Unido foi perdendo as suas joias da coroa, a ponto de ter visto a editora EMI ser vendida a um conglomerado europeu como a Universal. Mas o orgulho desta subcultura realmente produzida pelo povo que é a música pop britânica nunca se esvaneceu. Para simplificar as coisas, é algo não muito distante daquilo que os hooligans que acompanham a seleção de Inglaterra têm feito nas ruas de Marselha. Mas é qualquer coisa, mesmo que através de uma escrita musical rudimentar, também é capaz de nos emocionar. Para confirmar isso mesmo, está aí toda a história da música britânica.

Hoje, depois de ser conhecido o resultado do referendo, por mais que não acreditássemos, tivemos outro sinal de que essa cultura pode ser mais do que uma subcultura. E pode ser capaz de ganhar votações. Sobretudo quando há sinais, mesmo que dúbios e publicitados por jornais como o "The Sun", de que o povo tem o apoio da monarquia e, portanto, da nobreza.

É curioso porque esta putativa aliança entre povo e nobreza, obviamente contra a burguesia, também tem um episódio relevante na história da música portuguesa. Algures em meados do século XIX, unidos contra uma burguesia liberal emergente, juntavam-se em espera de touros e cantavam uma toada dolente que por aqueles dias dava os seus primeiros passos. Chamaram-lhe fado.

Hoje, a música britânica continua a ser um colosso. Tem uma importância, proporcionalmente, muito maior do que a da economia do Reino Unido. A EMI pode ter sido sugada durante a recessão que nos últimos 15 anos assolou a indústria da música, mas há um exército de editoras independentes, como a XL Recordings que lançou Adele, que assentaram todo o seu negócio na exportação.

São os burgueses do nosso tempo, que juntamente com a City, atravessam hoje momentos de pânico. A classe operária, a velha classe operária que nunca saiu do Reino Unido senão para umas férias baratas no Algarve ou uma tournée num campeonato da Europa de futebol, andava esquecida. Considerámos que as novas gerações dos Erasmus tinham abafado essa realidade mas ontem ela fez questão de se representar.

Tal como nunca se havia esquecido de fazer música pop, ontem quis dizer que o Reino Unido jamais será vencido. Com que consequências é coisa que não se sabe. O certo é que o nosso mundo voltou a fazer pop.